O diretor Sérgio Lerrer, sentiu o sabor do sucesso quando há 20 anos lançou ‘‘Verdes Anos’’, produzido e rodado no Rio Grande do Sul. De lá saiu para a mídia nacional. ‘‘De Cara Limpa’’, seu último trabalho em fase de lançamento – teve avant-premiére terça-feira passada na Cinemateca, em Curitiba – vem amealhando mais críticas que elogios da crônica especializada.
‘‘O filme é um pouco insolente, debochado’’, avalia e diz que este seria um dos principais motivos para tanto descontentamento pois ‘‘De Cara Limpa’’ vai contra a estética do cinema brasileiro reinante nos últimos anos. A moda é a realização de filmes pretensamente culturais, com imagens limpas, dentro de uma linguagem quase publicitária. Lerrer argumenta que a superficialidade teria ligação direta com as leis de incentivo.
Ele parte do princípio de que as verbas destinadas à arte chegam das grandes corporações, que não estão nem um pouco interessadas em questionamentos ou polêmicas, muito menos em apoiar a criatividade, a busca por novos caminhos. Unicamente a preocupação dela é com a imagem simpática que possa transmitir para a comunidade.
Dentro dessa norma houve um esvaziamento do tipo de produções que eram feitas no passado. ‘‘Por muito tempo o nosso cinema foi polêmico, e hoje não existe mais isso. Ocorreu um acomodamento dentro do gueto cultural por onde ele transita’’. Sérgio Lerrer dá um perfil dessa modernidade:
– O cinema brasileiro tem procurado abordar personagens de grande destaque. Você então tem bons trabalhos como sobre Villa-Lobos, sobre Mauá, mas nosso caminho é buscar personagens médios, anônimos. Não o sujeito de projeção que pode servir de lição de moral para as pessoas. A idéia é pegar personagens comuns e trabalhar com atores não necessariamente muito conhecidos para que possa criar atmofera diferente. Por outro lado procuramos uma estética mais coloquial que o cinema brasileiro popular tinha, como o Mazzaropi, o Teixeirinha. Mesmo as grandes comédias de costumes tinham linguagem de rua. Agora ela é mais correta, cuidadinha.
‘‘De Cara Limpa’’ usa e abusa dos palavrões, e como reconhece o diretor ‘‘radicaliza na parte de sexualidade e da escatologia’’. É proposital a irrevência, considerando-se que no momento ‘‘tudo é bem-comportado, ninguém quer polemizar’’.
Soa estranho esse desabafo vindo de uma pessoa que fez o lírico ‘‘Verdes Anos’’, com elenco gaúcho e atores desconhecidos. Lerrer defende-se: ‘‘Tudo tem o seu tempo. Naquele momento ‘Verdes Anos’ era uma crônica encantadora, singela, verdadeira, de emoções pequenas que retratava o País dos anos 70, em que a falta de perspectiva deixava as pessoas pequenas’’.
No entanto, ele continua, há certa coerência entre a obra adulcorada com esta mais recente. Ambos mostram jovens brasileiros ‘‘perdidos no meio do Brasil, tentando viver sua vida em meio a um ambiente desfavorável’’.
Sob esse aspecto nada mudou, pelo contrário, piorou. Se antes havia uma marca divisória onde as pessoas se situavam, agora ninguém mais sabe quem é o bandido e o mocinho, o certo e o errado. Em suma, o meio de campo embolou. Dissecar esse amontoado de ética e anti-ética é desagradável, daí a razão de temas afins não chegarem às telas, acredita o cineasta. A tendência é a obra palatável, de amenos sabores.
‘‘Nosso cinema está de terno e gravata’’, decreta Lerrer que não economiza críticas à plástica que as produções perseguem. ‘‘Você vai fazer uma obra e quer até colocar uma estética publicitária para ficar mais aceitável’’. Esse é o lado escancaradamente visível da necessidade de ser aceito; a vontade de mostrar que está capacitado a fazer igual ao cinema de outros países.
Enquanto se esmera no bem feito, perde em autenticidade e esbarra no ‘‘pedantismo cultural’’. ‘‘Às vezes parece que ele está acometido de complexo de inferioridade cultural’’, observa o diretor. Isto porque ‘‘você só tem que falar de coisas mais elevadas culturalmente, senão será mal julgado. Mas o cinema não tem a missão educativa como as escolas têm’’.
Por essas e outras é que sua atitude é clara: ir contra a corrente. ‘‘Nós estamos chutando o pau da barraca, mas sentimos que dentro da comunidade acabamos sofrendo um isolamento. Afinal, o que trazemos é inconveniente e estamos na hora errada, do jeito errado, com a estética errada do ponto de vista dos outros’’.

mockup