Filhos de peixe
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de novembro de 1998
Nelson Sato 
De mansinho, eles vão chegando. Ainda com a sombra dos pais pairando sobre os calcanhares, os filhos de Caetano Veloso, Djavan, Rita Lee e de outros artistas famosos da MPB e do rock começam a tatear seus caminhos musicais.
Os sinais de que as crianças cresceram (com o perdão do chavão) são visíveis em várias manifestações ocorridas este ano como, por exemplo, as primeiras aparições em shows, a gravação dos primeiros discos ou a primeira participação em bandas.
ReproduçãoBeto Lee com a mãe Rita Lee: depois de ficar conhecido acompanhando os pais em turnês, ele formou a banda Larika sem marketarias, dizEmbora seja precipitado falar em tendência, é notável a coincidência com que nomes como Moreno Veloso, Flávia Virgínia, Beto Lee, Bernardo Lobo, Dudu Araújo, Marcelo Marks, Kay Lyra ou Jay Vaquer saltaram quase ao mesmo tempo dos bastidores para os palcos - ou, no mínimo, para os créditos dos discos dos pais.
Convém lembrar que essa movimentação musical-familiar não se resume à relação pais-filhos, mas abrange um arco mais largo de parentescos, com irmãos e netos de celebridades debutando na cena. Não duvide, leitor, se alguém levantar a tese de que a renovação da música popular vai passar também pelos mistérios da herança genética.
Moreno Veloso, filho de Caetano, faz parte dessa turma. Ao lado de amigos, montou um estúdio especializado em gravação de trilhas sonoras e sonorização de filmes. No mês passado, ele provocou curiosidade ao se apresentar em companhia de dois músicos no projeto Acústico, promovido pelo Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. Foi seu primeiro show-solo.
DivulgaçãoFlávia Virgínia, a filha de Djavan, prepara vôos mais altos e um disco para o próximo anoAté então, ele tivera participações discretas tocando na banda de seu pai ou acompanhando outros artistas da MPB. Nesse show, eu cantei todas as músicas que compus em minha vida, umas dez. Foi a primeira vez que me apresentei cantando e tocando violão do começo ao fim. Não que eu me considere um cantor ou um violonista, pelo contrário. Na verdade, eu canto e toco mal. Aliás, tocar eu só toco pandeiro e olhe lá - diz, modesto, por telefone.
Moreno está com 25 anos. Estreou no mundo musical aos 9 anos dividindo com seu pai a parceria da música Um Canto de Afoxé para Bloco do Ilê, gravada no disco Cores e Nomes, de 1982. Dezesseis anos depois, a parceria foi reatada com a canção How Beautiful Could a Being Me, assinada por Moreno e que Caetano gravou em seu último álbum Livro.
A música, considerada por alguns críticos a melhor faixa do disco, foi definida por Caetano no texto de divulgação do CD como uma roda de samba de uma frase só, em que um inglês filosófico é usado para soar como um singelo e enigmático refrão africano. Além dela, duas outras composições de Moreno vieram à luz recentemente.
Uma foi gravada no CD Red Hot in Lisbon, coletânea organizada pela Red Hot Organization - entidade internacional que arrecada fundos para pesquisa da cura da Aids - para homenagear a capital de Portugal. Outra ganhou registro no CD Canções do Divino Mestre, o disco que acompanhou o livro Bhagavad Gita, traduzido por Rogério Duarte.
Moreno adianta que há ainda uma outra composição prestes a ser registrada em disco, mas não quis revelar o nome do artista contemplado. Ressalva, porém, que não se considera um compositor: De vez em quando faço música, mas não fico ávido em criar. Tenho amigos que compõem muito. O Carlinhos Brown, por exemplo, deve ter umas 5 mil músicas. Ele parece uma máquina.
Ainda empolgado com a apresentação no MAM, o filho mais velho de Caetano quer levar adiante o trabalho desenvolvido naquele show ao lado dos músicos Alexandre Kassin (baixo) e Domenico Lancellotti (bateria). Muita gente ficou curiosa com essa apresentação - acrescenta ele. Temos planos para esse trio, queremos mostrar esse show para mais pessoas e talvez registrar alguma coisa em disco. Mas por enquanto não há nada de concreto. Falta alguém botar uma gasolina.
Outro garoto de sobrenome famoso que espera um empurrão para decolar na carreira musical é o guitarrista da banda de rock Larika, Beto Lee. Vamos ver se alguém tá interessado em nos produzir, afinal sabemos o que queremos e geralmente os produtores costumam interferir muito e isso é um saco! - diz o menino, em entrevista feita pela Internet.
Filho de Roberto de Carvalho e Rita Lee, Beto ficou conhecido do grande público tocando em turnês com os pais e especialmente com sua participação no recém-lançado álbum Acústico. Formou o Larika há pouco mais de dois anos com amigos de infância e do circuito de bares e shows. A banda já foi octeto, depois virou quinteto, trio, dupla e hoje se solidifica como quarteto.
Beto diz que não tem ninguém fazendo o nosso som. Solicitado a definir o estilo da banda, afirma que o trabalho é 100% raça, sem marketarias, só na pauleira de um rock-n-roll bem tocado. E acrescenta: É chato para você ficar parado num determinado estilo o resto de sua vida. E com tantas coisas rolando por aí, não é nem saudável. Temos um pé calcado no rock, mas passeamos por funk, jazz, blues, MPB, samplers, loops e o que vier, a gente traça!!!
Também nascida em berço musical, a cantora Flávia Virgínia prepara vôos mais altos do que a até aqui participação em discos de amigos e do papai Djavan. Com algumas músicas já gravadas, seu álbum de estréia está previsto para ser lançado no começo do próximo ano. O CD, batizado de O Livro-Mãe, vai reunir só composições próprias.
É um trabalho totalmente autoral. Além de todas as faixas serem de minha autoria, as letras falam de vivências e experiências da minha vida. Tudo ali é autobiográfico - ressalta ela. Flávia Virgínia, hoje com 26 anos, já teve canções gravadas por Djavan compostas em parceria com Vitória Rudan e Jorge Vercillo.
No recém-lançado Bicho Solto, o XIII, o último disco de seu pai, assina a faixa Be Fair. Relativizando o rótulo MPB, Flávia alinha referências variadas em seu trabalho, que incluem desde música árabe a ritmos black como funk e soul. Confessa que sua grande influência é seu pai. Acho que herdei dele as divisões rítmicas estranhas. Quando não sei o que fazer, quanto estou numa encruzilhada, faço o que ele faria - diz.
Seus dois irmãos Max (violonista) e João Vianna (baterista) também seguem a carreira abraçada pelo pai ilustre. João, aliás, foi convidado para tocar na banda da cantora Cássia Eller.
Extensa, a lista de jovens que demonstram talento hereditário não pára por aí. Não será surpresa se mais nomes despontarem por esses dias juntando-se aos novatos citados nesta reportagem.


