Filhos da PUC encerram mostra
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de maio de 1998
Antônio Mariano Júnior 
DivulgaçãoCena de Senhora
dos Afogados: texto
de Nelson Rodrigues
coloca em evidência
o incesto, a
hipocrisia e a
repressão sexualEle é terrível! E desta vez, Nelson Rodrigues elegeu as mais latentes chagas de uma certa família Drummond para enfiar o dedo e cutucá-las sem dó nem piedade. A tragédia está instaurada em Senhora dos Afogados, espetáculo com o qual o grupo Filhos da Puc, de Belo Horizonte, encerra hoje, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde, a Mostra Regional/Nacional do Festival Internacional de Londrina.
Vejam só, em breves palavras, o que reservou Nelson Rodrigues para a Família Drummond. Misael, o patriarca, que vive um casamento fracassado com Eduarda, matou uma prostituta no dia de seu casamento com Eduarda - um casamento, diga-se de passagem fracassado. Com a prostituta, teve um filho. Sua outra filha, Moema, nutre pelo pai um amor desesperado. O outro filho, Paulo, nutre também um amor maior pela mãe.
Em resumo, Senhora dos Afogados leva o espectador a testemunhar incesto, complexo de Édipo e Electra, ódio, crime, hipocrisia, repressão sexual. E para ilustrar tudo isso, a família Drummond que encarna o supra-sumo da ruína e decadência. Uma família que está prestes a desaparecer. O forte desse texto é que ele tem estrutura de tragédia grega- comenta Paulo César Lima, ator e produtor do Filhos da PUC.
O espetáculo é atemporal. Passa-se em dois ambientes: o lar dos Drummond e o lugar onde viveu a mulher assassinada. Sabe-se apenas que ambos os locais ficam à beira-mar. Só que na concepção do autor os dois ambientes estão superpostos o que dá margem a uma pergunta crucial: Quando os lares tornam-se casas de meretrício? Quando prostíbulos transformam-se em lares?.
E é desta maneira que Nelson Rodrigues denuncia a situação da mulher na sociedade, questiona a condenação moral do prazer, critica a noção de pecado e expõe a angústia de vidas submetidas à repressão sexual. Para essa montagem, o grupo Filhos da Puc acrescentou alguns elementos da cultura oriental (árabe) que podem ser presenciados em figurinos e na trilha sonora.
Outro detalhe que deve chamar a atenção no espetáculo é a iluminação feita por Telma Fernandes, considerada a melhor de Belo Horizonte. Aliás, Telma foi diretora do Filhos da Puc, um grupo que surgiu no início da década de 80 mas que se dissolveu, após alguns trabalhos, por falta de um apoio maior da universidade.
O primeiro trabalho foi Tambores da Noite, de 83. Em 96, a própria reitoria da PUC de Belo Horizonte resolveu reativar o grupo que, como na proposta inicial, é formado por alunos de diversos cursos da instituição. E foi justamente com Senhora dos Afogados, que teve sua estréia em julho do ano passado, que o Filhos da Puc voltou ao foco dos holofotes. O próximo trabalho, Como a Lua, de Vladimir Capela, deve estrear em julho em Poços de Caldas. Trata-se de um espetáculo infantil de rua.


