Filho de peixe...
Uma das boas surpresas ano passado no Festival de Cannes foi ''Coisas que Você Pode Dizer Só de Olhar Para Ela'' (veja a programação de cinema na prágina 5), exibido fora de concurso na seção ''Un Certain Regard''. Primeiro longa de Rodrigo Garcia, filho do Nobel de literatura e até então experiente diretor de fotografia. Por enquanto engajado na chamada produção independente americana, ou o que ainda resta dela, Garcia realizou um filme que muito se aproxima do estilo europeu de fazer cinema.
''Things You Can Tell Just by Looking at Her'' é um desses filmes corais em que transitam e interagem (ou não) diversos personagens em histórias-vinhetas, justamente uma das marcas registradas da corrente ''indie'' (''Cenas da Vida'', ''Felicidade'', ''Amigos e Vizinhos'', ''Magnólia''). Aqui são episódios retratando cinco mulheres), suas angústias, desejos, dúvidas, suas vidas que se cruzam, se emaranham, se desgastam e mudam para sempre. E a pergunta pertinente: mas que coisas você é capaz de dizer sobre uma mulher só de olhar para ela?
Em cada capítulo oferecido ao espectador, uma das mulheres é o centro da narrativa. Glenn Close é a doutora solitária, incompleta, mas que ainda não desistiu. Holly Hunter faz a gerente de banco igualmente sem êxito na busca daquilo que se conhece por ''casal estável'' de resto, o denominador comum do roteiro e obviamente das mulheres. Kathy Backer é mão e divorciada, com a solidão escamoteada pelo vínculo com o filho; a chegada de um novo vizinho pode ou não mudar este quadro. A Cameron Diaz parece não faltar homens. Completamente cega, vive com a irmã, uma policial (Amy Brenneman, frequente nos elencos independentes). Finalmente, Calista Flockhart é a vidente de cartas de tarô. A namorada dela, Valeria Golino, é doente terminal de Aids. O cenário de todas as tramas é Los Angeles.
Rodrigo Garcia elabora este sensível mosaico auxiliado por um elenco bem ajustado e principalmente dedicado todas as atrizes, com fama estabelecida, se interessaram e se engajaram no projeto ganhando muito menos do que os respectivos cachês habituais. Lento sem ser arrastado, com os necessários tempos que calibram as emoções na medida certa, ''ôhings You Can Tell...'' oferece um brinde especial: diálogos tão abundantes quanto precisos. Característica, aliás, sempre presente nos ''talleres'' de roteiro que o velho Garcia Marques ministra pelo mundo afora. Lição de dentro de casa, bem ensinada e felizmente bem aprendida.





