''O Casamento de Raquel'' é enésimo argumento made in USA no qual um rito periódico (Natal ou Ação de Graças) ou ocasional (casamento ou funeral) convoca membros de uma família para reunião que inevitavelmente provocará catarse ou psicodrama grupal, com revelação de uma tragédia por todos dissimulada mas por ninguém esquecida.
Colocado desta maneira, o filme que estreia hoje em Londrina (veja a programação de cinema na página 2) pode parecer deja vu, pouco palatável, até mesmo indigesto. Seria, se a mão pesada do melodrama tipicamente hollywoodiano prevalecesse. Mas quem segura o leme aqui é Jonathan Demme, de regresso à ficção que frequentou e dignificou durante muitos anos - ''Totalmente Selvagem'', ''Silêncio dos Inocentes'', ''Philadelphia''. Apesar de o material bruto oferecer muitas frentes a navegar, o diretor recheia a narrativa com toques pessoais e imprime andamento correto, às vezes brilhante, obtendo ainda um punhado de excelentes interpretações em uníssono, não fosse este um elenco coral.
A família (des) unida jamais será vencida. Kim (Anne Hathaway), jovem drogadita ainda em tratamento de desintoxicação, volta ao reduto familiar para o casamento da irmã Raquel (Rosemarie DeWitt). Mesmo com a pouca idade, ela traz na bagagem um extenso prontuário de conflitos geracionais e existenciais. E apesar das fraturas emocionais, e mesmo desajeitada para expor sentimentos, Kim ama de verdade pai e mãe divorciados e a irmã prestes a embarcar em casamento inter-racial. Desfruta ainda do nível de vida de um grupo social culto e liberal (é um típico reduto eleitoral de Barack Obama), que no entanto a coloca na obrigação tácita de comportar-se bem em situação de convivência forçada e tediosamente harmônica. Como esta em que se encontra no momento.
Demme sempre se deu bem quando o estilo pretendido foi o docudrama (a fusão funcional entre documento e ficção), e aqui não é diferente. A câmera na mão, sem música incidental, cola na intimidade da família de Kim, seguindo os atores sempre de perto para registrar cada gesto. O resultado é um exame da dinâmica familiar concluído com acuidade, um registro-verdade dos altos e baixos, das generosidades e animosidades do grupo psicanalisado. E principalmente sobre a distância que demarca o território de cada um - melhor exemplo é a mãe fria e esplendida vivida por Debra Winger. A trilha musical produzida ao vivo é especialidade de Demme: a ele se deve um dos melhores filmes-concerto da história, ''Stop Making Sense'', sobre os bastidores da turnê britânica dos Talking Heads em 1984.
Impecável Anne Hathaway. Liberta da imagem de princesa Disney, enfrenta sua persona com honestidade e muita garra, sem esconder suas misérias, seu egoísmo e a vontade às vezes desordenada de encontrar a redenção num futuro todavia ainda incerto.

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