O mais recluso dos escritores americanos, J.D. Salinger, volta de novo à evidência com a publicação de um livro de memórias escrito por sua filha, Margaret, que revela um lado desconhecido do autor de ‘‘O apanhador no Campo de Centeio’’.
O livro ‘‘Dream Catcher: A Memoir’’ (da Washington Square Press) está salpicado de memórias dolorosas, mas, principalmente, de detalhes muito particulares de Salinger, que, aos 81 anos, é um dos escritores mais admirados nos Estados Unidos, apesar de não publicar nada desde 1965.
O livro de memórias desnuda um lado pouco conhecido de Salinger, que começou a cultivar sua privacidade e seu silêncio há quase meio século, quando se mudou, em 1953, para uma cabana de madeira em Cornish, New Hampshire, sem eletricidade, água corrente e, é claro, telefone.
Esse silêncio, considerado por seus admiradores como quase místico, foi quebrado há dois anos por Joyce Maynard, que publicou, em um livro, os detalhes mais íntimos de sua relação com o escritor, quando ela era uma estudante de 18 anos e ele um autor consagrado com 50 anos.
Além disso, no ano passado, Maynard leilou na Sotheby’s, em Nova York, um lote de 14 cartas do escritor, que foram adquiridas por 150.000 dólares por um filantropo, que as devolveu a Salinger, em respeito por sua privacidade.
Mas agora é sua própria filha, Margaret Ann Salinger (1955), que revela, entre outras coisas, que seu pai, metade judeu, foi casado com uma funcionária do partido nazista, Sylvia, de quem logo se divorciou.
Em seu livro, Margaret escreve sobre sua infância infeliz ao lado de Salinger, a quem pinta como um grande egoísta, cheio de manias estranhas.
Recorda alguns poucos bons momentos em companhia de seu pai, quando viam filmes juntos, principalmente musicais como ‘‘Gigi’’ ou os suspenses de Alfred Hitchock.
Mas a maior parte das recordações são dolorosas. A autoria conta, por exemplo, como Salinger mantinha sua mãe, Claire Douglas, como uma ‘‘virtual prisioneira’’ e que o escritor, influenciado pelo misticismo, havia renunciado ao sexo, o que transformou seu nascimento em quase ‘‘um milagre’’.
Margaret Salinger, 44 anos, explica que escreveu o livro motivada pelo desejo de entender seu famoso pai e para que seu filho não cresça em meio a um mundo de segredos e silêncios sobre seu avô. Margaret reconhece que seu livro - que recebeu várias críticas negativas por parte de quem a acusa de violar a privacidade de seu pai - deve ter sido muito mal recebido por Salinger, e que este provavelmente jamais lhe dirigirá a palavra. ‘‘Ele me ama, mas também provavelmente me detesta’’, declarou a autora ao New York Times.
Salinger geralmente responde com silêncio a quem resolve revelar fatos de sua vida, mas é provável que a atenção e curiosidade que geram livros como o de Margaret - tal como aconteceu com o de Maynard - durem apenas um breve tempo.
Em compensação, seu romance ‘‘O apanhador no Campo de Centeio’’ continua na lista dos cem livros mais vendidos dos Estados Unidos, segundo várias listas, entre elas a da livraria Barnes and Nobles e a do jornal USA Today, onde ocupa o número 74.

mockup