A aguardada Maria Rita Mariano forneceu anteontem à noite a primeira grande pista sobre o que vem pela frente. A filha de Elis Regina estreou seu primeiro show solo assumindo, o tempo todo, o status de... filha de Elis Regina.
Nadando contra a corrente da fuga das comparações, interpretou canções de dois dos maiores amigos da mãe, os díspares Milton Nascimento e Rita Lee. Resgatou Wilson Simonal. Cantou tristes e ternos temas de Natan Marques e Jean Garfunkel, próximos de Elis nos anos finais.
Ao cantar ''Silêncio das Estrelas'', de Lenine, parecia encarar um afro-samba de Baden Powell. Ao cantar ''Seduzir'', de Djavan, quase evocava o gestual de helicóptero que a mãe fazia nos primórdios de ''Arrastão''.
Sorriu e gargalhou de alegria e nervosismo em instantes inusitados. Ensaiou inesperadas expressões de raiva, nelas decretando a falência das luluzinhas, das boas moças da MPB.
Enfrentou a política ''Vero'' (Murilo Antunes-Natan), polvilhando delicadeza em termos cruéis como ''chacinas sanguinolentas''. Deu contornos novos à aparentemente bobinha (e no entanto igualmente poética e política) ''Pagu'', de Rita Lee. ''Minha mãe é maria alguém'', zombou, invertendo a ''maria ninguém'' da letra original.
Valeu-se de formação musical quadrada, em samba-jazz de piano, baixo e bateria. Arriscou-se ao mero conservadorismo. Parecíamos estar em 64, diante do nacional-populismo de Elis. Não estávamos. A delicadeza exibida em ''Vero'' e ''Menina da Lua'' (Renato Motha) é dom que sua mãe, pedra bruta, demorou anos a conquistar.
Maria Rita estréia feito força da natureza e feito pedra bruta, ainda nada polida, mas partindo do ponto exato em que sua mãe parou. Se mirar cada vez mais o futuro e menos o passado, a MPB terá virado uma de suas mais importantes páginas. Rumo a outra mais promissora.
O show da cantora acontece no Supremo Musical (Rua Oscar Freire, 1.000, em São Paulo) Tel. 0/xx/11/3062-0950, às quintas-feiras, dias 20 e 27, às 22 horas. Os ingressos custam R$ 25, mas estão esgotados.

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