São Paulo – O compositor e violonista Chico Pinheiro, segundo lugar do Prêmio Visa de compositores, em 2000, mesmo ano em que foi finalista do festival de música da ‘‘Rede Globo’’, apresentou, pela primeira vez para o público brasileiro, na última segunda-feira, no Supremo Musical, em São Paulo, a cantora Maria Rita Mariano, filha de Elis Regina e de César Camargo Mariano.
Maria Rita morava, há até poucos meses, nos Estados Unidos, onde vive seu pai. Formou-se em comunicação, com especialização em estudos da América Latina. Mas sempre quis cantar. Pudores compreensíveis impediram que a carreira tivesse início antes. Nascida em São Paulo, em agosto de 1977, Maria Rita chegou a gravar, no ano passado, algumas faixas para um possível primeiro disco.
No meio do caminho, mudou de idéia. Fugiu do ímpeto: preferiu maturar a intenção. Convites não lhe faltaram – mas foi o de Chico Pinheiro que a levou, enfim, ao palco (nos Estados Unidos, ela já havia cantado). Chico Pinheiro é um dos grandes músicos da nova geração de autores-instrumentistas da cena alternativa brasileira (bom lembrar que é na cena alternativa, fora da televisão, da quase totalidade do rádio e das grandes gravadoras que se faz boa música). Paulistano, 29 anos, trabalhou com Chico César, Rosa Passos, Danilo Caymmi, entre muitos. Estudou na escola de música de Berkeley, nos Estados Unidos.
É um músico de extraordinárias qualidades – técnica e delicadeza fazem, em seu trabalho, par perfeito. Precisava mostrar a obra (que apresentou, em parte, no Prêmio Visa). E queria juntar os companheiros de geração, em cena – instrumentos e vozes que, com ele, formam o grupo brilhante.
Conseguiu apoio do Itaú Seguros, cercou-se dos melhores: o baterista Marco da Costa, o contrabaixista Marcelo Mariano (filho de César Camargo Mariano e da cantora Marisa Gata Mansa), o pianista Fábio Torres (finalista da primeira edição do Prêmio Visa, por onde, como se vê, passa boa parte da boa música moderna), o clarinetista Naylor Proveta e as cantoras Luciana Alves e Maria Rita Mariano.
O show fica em cartaz até o dia 27, sempre às segundas-feiras. Haverá sempre um convidado especial. Na próxima segunda, será a vez do cantor Jair de Oliveira, filho de Jair Rodrigues; no dia 20, o compositor Chico César, parceiro de Chico Pinheiro; e, no dia 27, José Miguel Wisnik.
Em exuberante forma, Chico Pinheiro abriu a noite com o desafiador choro Di Menor, de Guinga (que tem letra de Celso Viáfora). Em seguida, convidou a bela e talentosíssima Luciana Alves e passou a mostrar as próprias canções: ‘‘Ao Vento’’, ‘‘Essa Canção’’, ‘‘Jardim de Arroz’’. Com Swamy Jr., apresentou o instrumental ‘‘Choro Calado’’. Depois, chamou Maria Rita Mariano, que começou a participação com April Child, de Moacir Santos. Cantou a versão inglesa da letra.
Naturalmente, as atenções estavam voltadas para essa moça – cujos pudores já tornam merecedora de aplausos. Ela teria carreira pronta, feita, com investimento pesado em qualquer gravadora. O canto é deslumbrante. O timbre e alguma coisa dos gestos fazem lembrar a mãe. Um pouco tímida, ainda, Maria Rita custa um pouco para soltar a voz aberta que faz o laço de parentesco óbvio.
É engraçada, simpática, talentosa. Escolheu o caminho mais difícil – o de fazer boa música numa terra em que a boa música é tratada como dejeto. De caráter também são feitas as boas cantoras. ‘‘Agora, é preciso saber se me querem’’, disse, no fim do show. A casa estava lotada. Querem, sim.

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