São Paulo, 04 (AE) - Para os ínfimos privilegiados que têm ouvidos iguais aos seus (bem, João Gilberto está na moda...) e conseguiram o tão caro quanto disputado ingresso (esgotados com assinantes e patrocinadores) para assistir às duas apresentações da Orquestra Filarmônica de Viena, regida pelo não menos celebrado Lorin Maazel, quarta-feira será dia de jejum auditivo, ao menos até a hora do concerto. O espírito deverá ser o mesmo da preparação para um daqueles rodízios sensacionais de carne, só que para a música: ouvidos tapados logo cedo, nada de pagodes, buzinas, gritos infantis ou freadas de ônibus. Silêncio total , apenas quebrado quando o maestro levantar a batuta e iniciar a "Sinfonia n.º 4", de Brahms, que abre, na Sala São Paulo, o recital de quarta. Na quinta, um programa só com Richard Strauss fecha a série internacional deste ano da Sociedade de Cultura Artística.
Uma festa, infelizmente, para poucos. Mais um curioso paradoxo na história de uma orquestra nascida, em 1842, sob a regência de Otto Nicolai, como forma de garantir uns trocados extras para os músicos nas noites em que não havia récitas na àpera de Viena (até hoje, uma das regras do grupo é que os filarmônicos precisam pertencer às duas instituições). Nos primeiros seis concertos, sucessos de bilheteria, eles viram que aquele bico tinha futuro. Mais: saborearam a doce sensação da liberdade sem um maestro. Desde então, a Filarmônica não possui um titular (Furtwaengler quase o foi), apenas convidados, que devem passar pelo seu temível crivo. Deuses - Cada membro da orquestra acha que é um deus e, pior, quer ser tratado como tal. Para essa turnê ao Brasil, foi necessário separá-los em vários aviões, pois só viajam de primeira classe ou de executiva. Não poucos regentes descobriram o terror e o prazer de estar à frente de uma centena de músicos arrogantes e maravilhosos que se acreditam os donos da música. Uma piada favorita entre esses cavalheiros descreve uma conversa em que um dos músicos pergunta ao colega o que o maestro vai reger à noite e o outro responde: "Ele eu não sei; eu vou estar tocando a Pastoral".
Não sem razão, evitavam convidar regentes perfeccionistas, como Klemperer, que, apaixonado pelo grupo, dizia: "Maravilhosos, são, individualmente, desprezíveis". Durante um ensaio com Furtwaengler, um violoncelista, que comera muitas bratwurst, desabotoara as calças e, ao se levantar para virar a partitura, exibiu o derriére rotundo para o maestro. Quando Mahler, outro de seus convidados, ficou doente, o grupo nem pensou duas vezes em descartá-lo, mandando, no entanto, a maior coroa de flores ao seu funeral, pouco depois.
Com a união da áustria ao Reich de Hitler, decidiram dar-se de presente ao fuhrer como "o mais belo presente da província de Ostmark (novo nome dado ao país anexado) ao grande Reich alemão". Seis de seus músicos morreram em campos de concentração, mas os outros usaram, com alegria, os distintivos do partido e entregaram Alfred Rosé, seu spalla, um judeu, de bandeja ao nazis. Foi também em seus concertos que Karl B”hm, braço estendido na saudação hitlerista, cumprimentou o público presente, antes de atacar Wagner.
Podiam, no entanto, ter arroubos de generosidade. Permitiram que Bruckner, considerado um idiota (talvez, no sentido clínico, ele o fosse), regesse a Filarmônica. Em pé, no pódio, olhando apalermado para os músicos, o compositor ficou imóvel. O spalla, baixinho sussurrou-lhe que, por favor, começasse. "Ah, não, cavalheiros; por favor, depois de vocês". Em 1988, Riccardo Chailly, chamado a dirigi-los, ousou fazer críticas a alguns de seus procedimentos. O grupo entrou em greve. O maestro, humilde, penitenciou-se como um beato.
Ainda assim, deram-se muito bem com Bernstein que a definiu de forma curiosa: "É uma orquestra de nazistas, que, no primeiro ensaio nem olham para sua cara. Mas após meia hora lambiam meus sapatos, acendiam meu cigarro, mostrando a dualidade alemã do mestre e escravo". Até há dois anos, recusavam-se a aceitar mulheres, pois achavam que o som delas destruiria o timbre masculino do grupo. São tradicionalistas ferrenhos e passam os postos de pai para filho. Pressionados pelo governo austríaco, que ameaçou cortar subsídios, permitiram raras exceções. Uma charge de um jornal mostrou a pobre moça que recebe um pacote com a carta da Filarmônica, aceitando-a e mandando que usasse, nos ensaios, o outro item enviado em anexo: uma barba. Eles são terríveis. Mas, como disse Richard Strauss, "só aquele que os regeu são quem são e isso é um segredo nosso". Comportando-se como diabinhos, eles efetivamente tocam como deuses. Serviço - Orquestra Filarmônica de Viena. Regência de Lorin Maazel. Quarta e quinta, às 21 horas. Ingressos esgotados. Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, s/n.º, tel. 223-5199.

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