A voz grave e a fala mansa, sempre intercalada por boas risadas, transformam qualquer entrevista com Paulo Goulart em uma aula bem-humorada sobre a história da tevê. Longe da época da supervalorização de celebridades, Paulo ainda faz questão de encarar a profissão como um operário. ''Estou a serviço da arte. Como qualquer assalariado, todos os dias, começo a minha rotina pela manhã e, entre leituras de textos e gravações, trabalho uma média de 16 horas por dia'', entrega. Entre folhetins, séries e especiais, desde a estreia, na novela ''Helena'', de 1952, até a atual ''Morde & Assopra'', o ator contabiliza a impressionante marca de 49 trabalhos no veículo. ''Nunca fiquei longe da televisão. E, ao longo da vida, também fiz coisas interessantes no teatro e no cinema. Sou movido por bons personagens'', valoriza.
Na trama escrita por Walcyr Carrasco, Paulo dá vida a Eliseu, médico da fictícia cidade de Preciosa. Separado, ele mora com os filhos e tem sua pacata existência abalada com a chegada da governanta Elaine. Cego de paixão, o médico é facilmente enganado, pois Elaine é apenas um disfarce do malandro Élcio, de Otaviano Costa. ''São situações muito absurdas, que deixam as gravações bem divertidas'', entrega.
Você estreou na tevê em 1952. Quase 60 anos depois, o que o instiga a aceitar e construir novos personagens?
Na minha profissão, cada papel é uma nova proposta. Algumas vezes a proposta é um pouco repetitiva, mas tenho tido a sorte de poder fazer coisas diferentes. O mundo não para. Então, o processo evolutivo faz com que nós tenhamos a cada nova possibilidade de trabalho, outras oportunidades de pesquisas e chances de melhorar. É como quando você faz um clássico. Um texto de Shakespeare feito atualmente, pode adotar uma linguagem mais contemporânea, sem perder as essências clássicas do autor. Bons textos tem esse dom de incorporar coisas novas sem perder pontos no resultado final.
Você está sempre emendando trabalhos na televisão. É uma imposição contratual ou você tem dificuldade em recusar papéis?
Não existe nenhuma obrigação. Mas a principio, nunca recuso nada. É necessário analisar e estudar cada proposta. E, dentro da sua agenda, ser sincero com você mesmo e com os compromissos que já assumiu. Quem escreve e te convida para algum projeto, sempre fica na expectativa de que você vai participar. Quando não é possível, por uma questão de temperamento, eu sempre gosto de conversar melhor com as pessoas, explicar os motivos de não encarar aquele trabalho. Só recuso de cara aquelas coisas que não tenham nada a ver comigo, ou que não vão acrescentar em nada na minha carreira.
E o que um personagem precisa ter para ser irrecusável?
Quanto mais diferente, melhor. A possibilidade de viver outras vidas é um grande abastecimento profissional. Eu já tive dias de rei, interpretei Deus, gays, mulheres, e isso é revigorante. Os seres humanos são nossa matéria-prima. E é isso que fascina, é isso que nos permite viver situações e idades diferenciadas.
Então a delicada relação entre o Eliseu e a Elaine/Élcio pesou na hora de aceitar o trabalho em ''Morde & Assopra''?
Sem dúvida. É uma história inusitada e inesperada. Quis saber como é que funciona a relação desse homem tão conhecedor dos seres humanos que, de repente, se envolve em uma situação extremamente curiosa e cômica. Eu adoro comédia e o legal da novela é que o público conhece toda a trama, e os personagens não. De uma certa forma, o telespectador é uma espécie de confidente. Na rua, todo mundo fica me alertando sobre o fato da Elaine ser um homem. Dizem para eu tomar cuidado com isso.
Você sente que o tom cômico do papel provoca uma aproximação maior do público?
Sim. Geralmente, personagens cômicos ou envolvidos em situações engraçadas deixam o ator mais próximo do público. E neste trabalho a resposta está sendo maravilhosa. Ter esse contato é a melhor forma de saber que seu personagem está sendo acompanhado. Quem faz e assiste novela, sabe que o produto está fazendo sucesso quando ele tem potencial para se transformar em uma espécie de confidência entre ator e público. Nosso trabalho entra na casa das pessoas, esse intimismo faz com que surja uma relação coletiva.
Essa relação com o público já chegou a incomodar?
As pessoas me olham com intimidade. Eu falo com quem me aborda na rua como se conhecesse a pessoa. Esse contato nunca me incomodou. É preciso saber se preservar. Se você não está bem e não quer ser importunado, melhor não sair de casa, fique na sua. Mas a partir do momento que você sai e vai a um lugar público, essa exposição faz parte do ofício. A postura varia entre os colegas de profissão. Porém, se o seu trabalho o transforma é uma pessoa pública, e o seu êxito precisa desse reconhecimento, esta exposição faz parte.
Depois da estreia, a novela passou por problemas de audiência e algumas modificações foram feitas. Seu personagem sofreu alguma alteração?
Acho que não. Se sofreu, foi de forma bem discreta. Muitas produções passam por pequenas reformulações e isso é bem normal. Este trabalho está me trazendo muitas alegrias. Eu já queria voltar a trabalhar com o Walcyr faz tempo. Gosto do texto dele e de como ele conduz as tramas de forma cômica.
Você buscou algum processo especial de composição para dar vida a um médico?
Para mim, o texto é a base de tudo. Não sou adepto de complexos processos de construção de personagem. Além do texto, a composição é um trabalho absolutamente coletivo. O ator entra com o emocional e a equipe técnica com a parte racional. Tem de existir um equilíbrio entre o trabalho do ator, com as intenções do autor e do diretor. A partir daí cria-se uma sintonia para desenvolver a história.
Depois de tantos anos na televisão, o que mais lhe agrada no processo de gravação de uma novela?
Alguns aspectos do trabalho na televisão são extremamente desgastantes. São muitas falas para decorar e dias inteiros dedicados às gravações. Além disso, tanto os avanços tecnológicos, como as concepções mais arrojadas, resultam em um bom produto. Mas as tramas ficaram mais caras e necessitam de um tempo maior para serem produzidas. O ator é uma parte pequena do processo. Me sinto um soldado na frente de uma tropa, uma tropa de elite. Como em um jogo de xadrez, os atores são os peões. Dão cara ao produto. Mas existe toda uma estrutura por trás que me permite atuar. E às vezes pinta um xeque-mate, que é quando a novela vira um sucesso.
''Morde & Assopra'' - Globo - Segunda a sábado, às 19h10.

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