Diante dos recentes acontecimentos numa certa ''Terra do Nunca'' da Califórnia, esta pode não ter sido a melhor ocasião para o lançamento de mais uma adaptação para o cinema da imortal história que está comemorando um século, com direito a extensas e festivas homenagens especialmente em Londres a partir de abril. Escrita por James M. Barrie em 1904 sob a forma de peça teatral, ''Peter Pan'' ganha agora esta versão que o roteirista e diretor P.J. Hogan (''O Casamento de Muriel'' e ''O Casamento de Meu Melhor Amigo'') realizou na Austrália e que o próprio Hogan considera, com razão, a mais fiel ao texto de Barrie. O filme, que reconta a história do menino voador que nunca cresce, está a partir de hoje em circuito nacional.
É o primeiro roteiro feito em cima da história original, sem aqueles filtros que a tornaram sempre rósea e inocente nada contra o desenho Disney de 1953, adorável lembrança a assombrar docemente o imaginário do publico atualmente cinquentão. Os atores aqui são reais, não animados e não virtuais. O Capitão Gancho não é nenhum vilão tonto e bonachão (a tentativa de Spielberg-Hoffman em ''Hook'' escorregou para a caricatura). E o personagem-título não é um adulto metido a engraçado e se debatendo entre a infância reprimida e a crise dos quarenta, como Robin Williams no mesmo filme, ou menos ainda uma senhora como Betty Bronson, Jean Arthur ou Mary Martin em décadas passadas, mas um garoto mesmo, com a idade real (13 para 14), rude, selvagem, ao mesmo tempo corajoso e cheio de medos, assustado, mas disposto a tudo.
Este novo Peter Pan começa numa idealizada Londres edwardiana, onde a arte de contar histórias ganha especial relevo uma bela imagem, nas antípodas desta nossa era de instantânea gratificação do vídeo-game. Wendy, interpretada com sensibilidade e inteligência por Rachel Hurd-Wood, encontra em Peter Pan (Jeremy Sumpter, o maior acerto do casting) o companheiro ideal para as delicias da sonhada aventura, voando com ele para Neverland a viagem ''aérea'', aliás, é momento notável de maravilhas visuais providenciadas pelo diretor de fotografia Donald McAlpine (''Moulin Rouge''). A amizade Wendy-Pan enfrenta alguns obstáculos imediatos, entre eles o ciúme da Fada Sininho (a francesa Ludvine Sagnier, jovem, sedutora e desinibida atriz francesa rebatizada ano passado em Cannes como ''Nudivine'', por razões óbvias.
Jason Isaacs transforma Gancho num vilão diabólico, embora charmoso o bastante para iludir uma jovem inocente como Wendy a sequência do rapto é plena de suspense e excitação, com sutis insinuações libidinosas. Várias imagens do filme são assustadoras até para os mais velhos, como a obsessão homicida de Gancho por Peter Pan. E a platéia adulta poderá ainda trabalhar com um subtexto freudiano (o ator que interpreta Gancho também interpreta o pai de Wendy). Um filme de bom tamanho, este ''Peter Pan'', de olho nas platéias contemporâneas mas sem trair o chamado ''espírito da coisa''. (C.E.L.J.)

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