Uma das trajetórias mais fascinantes da literatura brasileira completará dez anos de morte daqui dois meses. É provável que parte da imprensa cultural dê merecidas linhas à escritora Hilda Hilst, não apenas pela importância de sua obra como pela generosidade com que ela atendeu solicitações de entrevistas para jornais e revistas ao longo de cinco décadas de carreira literária.
O livro "Fico besta quando me entendem", recém-publicado pelo selo Biblioteca Azul da editora Globo, reúne justamente algumas dessas entrevistas. Compilado e organizado por Cristiano Diniz, reproduz 20 conversas da autora de "A obscena senhora D", num arco de abrangência que vai de 1952 a 2003, oito meses antes de seu falecimento.
O foco da coletânea é trazer ao leitor a visão de mundo da escritora, suas opiniões sobre o Brasil e a literatura contemporânea nacional e estrangeira. A pesquisa do material deixou de fora as tradicionais entrevistas promocionais de lançamentos de livros. "Uma vez que esse `objetivo publicitário´ gerou conversas específicas sobre determinado título, optei por excluí-las. Principalmente porque, antes de tudo, foram improdutivas, pois Hilda foi irredutível na recusa em dar explicações sobre seus trabalhos", salienta Diniz no texto introdutório.
Mais citada do que lida, a obra da escritora nascida em Jaú (SP) conta com cerca de 20 volumes de poesia, doze de prosa e oito peças de teatro. Hilda escreveu a maioria dos livros na Casa do Sol, uma chácara localizada na região de Campinas (SP). A fama de hermética e difícil sempre esteve associada a seus textos. Da mesma forma, a folclorização em torno da autora personagem foi bastante difundida, reforçada por fatos biográficos como a esquizofrenia de seu pai, a reclusão monástica, as experiências com discos voadores e os mais de setenta cachorros que criava.
Entre seus títulos mais conhecidos estão "A obscena senhora D" (1982), adaptado para o teatro em 1993 e traduzido para o francês; "Fluxo-floema" (1970), seu primeiro livro de ficção; e a tetralogia obscena composta pelos volumes "O caderno rosa de Lori Lamby", "Contos d´escárnio / Textos grotescos", "Cartas de um sedutor" e "Bufólicas", publicados entre 1990 e 1992.
Foi nessa época, da guinada erótica, que seu nome se projetou com mais força na mídia. Ao decidir enveredar pela narrativa picante, provocou um alvoroço no meio literário, alimentado por suas declarações de que abandonaria a literatura "séria". Numa das entrevistas de "Fico besta quando me entendem", ela justifica sua opção: "Eu quis me alegrar um pouco. Eu tinha uma certa alegria sabendo que escrevia muito bem, mesmo não sendo lida. Mas de repente eu quis me alegrar. Comecei a sentir um afastamento completo de todo mundo. Eles nunca me liam, nunca. Então decidi fazer o livro. Pensei: `vou fazer uma coisas porcas´. Mas não consegui. Eu queria fazer uma coisa que, de repente, eles gostassem de ler. Não adiantou. Diziam que eu era dificílima na literatura pornográfica".
Incompreendida pelo público, Hilda era admirada pelos críticos. Em 1984, conquistou o Prêmio Jabuti com "Cantares de Perda e Predileção". Em 1993, arrebatou o mesmo prêmio na categoria Conto com "Rútilo Nada". Antes, em 1977, havia faturado o troféu de Melhor Livro do Ano da Associação Paulista de Críticos de Arte com "Ficções". Diniz observa que "a autora se manteve segura de que conseguiria traduzir para a literatura suas percepções e pesquisas `sobre o Homem, a Morte, o Ódio, etc´. Porém, como há ainda um grande desconhecimento de sua obra, faltam análises que comprovem se essas intenções declaradas nas entrevistas se formalizaram nos livros".
Uma curiosidade: entre os entrevistadores da escritora estão nomes como Caio Fernando Abreu, Millôr Fernandes, Marilene Felinto, Nelly Novaes Coelho e José Castello.

Serviço
Livro "Fico besta quando me entendem"
Autor: Cristiano Diniz (organizador)
Editora: Biblioteca Azul/Globo
Preço: R$44,90

Confira aqui trechos das entrevistas

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