Ficção resgata viagem sem volta de dekasseguis
Livro "Na Casa do Pai", de Marleth Silva, traz experiências de famílias abandonadas no Brasil na década de 90, auge da imigração para o Japão
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de maio de 2025
Livro "Na Casa do Pai", de Marleth Silva, traz experiências de famílias abandonadas no Brasil na década de 90, auge da imigração para o Japão
Walkiria Vieira 

Foi trabalhar no Japão e não voltou mais. Arrumou outra família por lá e não deu mais notícias. Frases como essas resumem experiências de abandono vividas por muitas famílias. Na década de 1990, auge da imigração de brasileiros de origem japonesa para o Japão em busca de trabalho e dinheiro, a jornalista Marleth Silva esteve em Londrina fazendo reportagens sobre o assunto. Ela era chefe da sucursal da revista Veja em Curitiba.
"As histórias que ouvi eram impressionantes. Uma vez, entrevistei uma mulher muito jovem cujo marido tinha viajado há poucos meses e já tinha parado de enviar dinheiro e interrompido o contato. Ela estava perplexa. Me deu a entrevista com o filho de pouco mais de um ano no colo. Recentemente eu soube por amigos que moraram no Japão que esta situação é relativamente comum", explica.
Em busca do pai que deixou o Brasil para trabalhar no Japão e não voltou mais, Orlando vive a experiência de, por alguns dias, ser outra pessoa e viver um novo amor em "Na Casa do Pai", de Marleth Silva, Editora Arte & Letra, 2025.
De forma dinâmica, as 108 páginas levam o leitor a consumir a obra com entusiasmo, sobretudo em razão dos encontros amorosos presentes na ficção. "Gosto de pensar que neste livro a paixão surge como um desafio que inspira novos caminhos, mas que também pode exigir rupturas difíceis", revela a autora que vive em Curitiba e concedeu entrevista à Folha.
A mulher de Londrina citada e alguns amigos que cresceram sem o pai por perto foram o ponto de partida para "Na Casa do Pai". E esta é uma situação que a escritora também testemunhou na vida de alguns amigos e chamou a sua atenção a reação de homens que, quando eram crianças ou adolescentes, viram o pai ir embora.
"Notei neles uma perplexidade permanente, uma dificuldade para aceitar que o homem que devia ser o pilar da família virou as costas para ela. Era uma ferida mal curada e que influenciava a forma como esses filhos se comportavam ao se tornar adultos. Não que toda pessoa que carrega essa experiência reaja da mesma maneira. Neste livro, eu quis explorar as reações de um filho a essa situação. Foi meu ponto de partida", detalha.
A autora reflete também que os pais são nossos primeiros vínculos com o mundo e, especialmente, com o mundo adulto. "Ao observá-los, absorvemos uma ideia do que é ser uma mulher adulta, do que é ser um homem adulto. Eu entendo que há vários tipos de abandono e várias formas de lidar com ele. Ao escrever sobre um filho que vai buscar o pai que foi trabalhar no Japão e não voltou, eu quis desenvolver uma das possibilidades, que é a do rapaz só assumir sua mágoa quando o encontro finalmente acontece. Ele próprio não se conhecia", conta.
Vítima do abandono, o protagonista enfrenta situações parecidas com as que o pai viveu: dificuldades na vida profissional e muitas responsabilidades com a família. "Nesse momento, ele segue seu próprio caminho e é aí que o tema do livro se torna delicado", pontua a autora. "Porque a personagem não é como o pai, mas também tem suas fraquezas. Ser adulto e ser homem é tão difícil para ele como foi para o pai. Tentei ser sutil ao explorar a vontade que todos, ou quase todos, temos em algum momento de fugir da vida cotidiana e buscar uma segunda chance, quase como uma outra encarnação", comenta.
Durante a narrativa, Orlando enfrenta situações desafiadoras, mas que poderão dar a ele a chance de seguir em frente com mais noção da realidade e de suas próprias fragilidades. O protagonista é exposto à mesma tentação que o pai encontrou no Japão. "Ele também é um homem carregando com dificuldade o peso das responsabilidades, como a de manter um casamento. Eu quis mesmo jogá-lo na fogueira! Mas ele é outra pessoa, não é o pai", observa.
Silva compreende que ser abandonado é terrível e uma experiência que esmaga a autoestima, a confiança na vida - com o agravante que quem fica teme que algo de ruim tenha acontecido com quem foi embora. "É isso que aconteceu com todas as mulheres do meu livro que ficaram no Brasil. Mas elas vão entendendo a realidade, a preocupação se torna mágoa e depois é deixada de lado porque elas precisam tocar a vida. As mulheres são as cuidadoras e por isso estão menos focadas em si mesmas, o que as torna mais fortes", expõe.
Orlando viaja, encontra o pai quase 20 anos depois e busca uma resposta para o abandono. Um pai que não quer ser julgado. A autora compreende que o impulso para julgar o outro é um ponto importante e não é sua pretensão julgar ninguém. "Pensando nas personagens como pessoas reais, eu só quero provocá-las. Todos fazem tolices, têm fraquezas. Todos estão submetidos à realidade brasileira, que influencia fortemente os rumos que eles tomam", pensa.
O pai, Claudio, deixou o Brasil porque não via perspectivas de progresso. "Essa foi uma realidade muito forte do início dos anos 1990 que levou muita gente a deixar o país. A situação começa a melhorar a partir de 1994, quando o Plano Real controla a inflação. De lá para cá, vivemos outras crises, mas eu creio que a realidade melhorou. Ainda assim, quantas pessoas não sonham com a vida em outro país como uma porta dos sonhos? Em um país machista, a falta de perspectiva financeira é especialmente assustadora para os homens, que medem seu valor pelo sucesso que podem exibir. Eu coloco Claudio neste contexto. Ele pode viver mal e fazer um trabalho modesto no Japão, mas lá ele está longe dos olhos de parentes e amigos e por isso sua vaidade é poupada. O que o filho vai fazer com tudo que vai descobrir sobre o pai e sobre sim mesmo é que vai determinar os rumos de sua vida", analisa.
SOBRE A AUTORA
Autora de "Quem Vai Cuidar de Nossos Pais?", "O Amigo das Estrelas" e "Técnicas de edição no jornalismo", Marleth Silva nasceu em Peabiru e morou em outras cidades do interior do Paraná porque seu pai era gerente do banco Bamerindus. "Eu me mudei na adolescência para Curitiba e também morei em São Paulo, Londres e Paris. Agora voltei a me assentar em Curitiba, onde moro com meus dois filhos".
No mercado desde os 20 anos, a jornalista atuou na Gazeta do Povo, Rádio T, Jornal do Brasil, UOL e foi colaborada de várias publicações ao longo da carreira, como as revistas Piauí e Globo Rural.
“Na Casa do Pai” é sua primeira ficção. "Venho tentando publicar esta novela (pelo tamanho curto, eu chamo o livro de novela) e meus contos há muitos anos. É difícil entrar nas editoras. Consegui, finalmente, a publicação por uma pequena e caprichosa editora de Curitiba, a Arte e Letra", completa.

SERVIÇO
"Na Casa do Pai"
108 páginas
Autora: Marleth Silva
Editora Arte & Letra, 2025


