Ficção, realidade e bom humor
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de novembro de 1998
Carlos Haag Agência Estado 
Para Marx, a história ocorria inicialmente como tragédia e, depois, repetia-se como farsa. Jô Soares achou que poderia ir um bocadinho além e fez dela uma comédia em O Homem Que Matou Getúlio Vargas (Companhia das Letras, 342 páginas, R$ 25,00), sua mais nova aventura literária, após o sucesso de O Xangô de Baker Street (que está sendo filmado por Miguel Farias), um hit nas livrarias que vendeu mais de 430 mil exemplares no País e teve os seus direitos vendidos para os EUA, França - onde vendeu 100 mil cópias - Espanha, Alemanha, Argentina, Grécia, Holanda, Itália, Japão e Portugal. A nova criação do humorista já chega em grande escala: 100 mil exemplares iniciais.
Como no romance anterior, Jô joga figuras ficcionais em meio a acontecimentos reais e as faz conviver, com familiaridade e em detalhes precisos, com figuras históricas. Neste caso, o entrão nos bastidores da história é um atrapalhado anarquista servo-croata de 12 dedos, Dimitri, que, por acasos absurdos e em aventuras rocambolescas, acaba por envolver-se com Mata Hari, Picasso, Madame Curie, Al Capone, Irving Thalberg, o cartunista Péricles, o Anjo Negro Gregório Fortunato e, entre muitos outros, Getúlio Vargas, é claro.
Escrevo para me divertir e, assim, nada melhor do que essa mistura de história e ficção, duas coisas que eu adoro, explica Jô. Também me atrai muito a pesquisa, ler os 80 livros que precisei para fazer esse novo livro, fruto de dois anos de trabalho, em especial sobre a história do Brasil, tão fascinante e, ao mesmo tempo, vítima de pouco caso, diz. Acima de tudo, como humorista, agrada-me ver como a realidade acaba superando a ficção, completa. Ao fim de O Homem que Matou Vargas, o apresentador deixou à disposição de seus leitores a extensa bibliografia utilizada.
Mais do que justificadamente. A riqueza dos detalhes, que são inseridos na trama com a precisão de entrada e saída de personagens de vaudeville, é impressionante. E também é uma fonte de humor, porque é possível se pensar que tudo o que não ocorreu, a ficção, poderia ter ocorrido de verdade, enquanto a realidade poderia ter sido diferente, analisa. Assim, apenas como um dos inúmeros exemplos, a presença de não um, mas 22 assassinos no caminho do arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo, cuja morte foi o estopim da 1ª Guerra.Na hora de colocar Dimitri lá, pensei: Como colocar mais um; daí verifiquei que havia toda essa multidão de matadores e percebi que, como a história já era um conjunto de absurdos, mais um não faria diferença.
Mas não espere grandes piadas no livro do comediante. O grande humor do meu texto não é reunir piadas, mas apresentar uma visão de mundo humorada, fazer com que as pessoas percebam que as coisas podem ser engraçadas, mesmo sendo reais e que o ser humano, em suas grandezas e pequenezas, é ridículo e está sujeito aos desencontros da história, avalia. Os marxistas, com certeza, não gostarão. Certo, o materialismo histórico não dá importância ao indivíduo, mas é preciso reconhecer que um gesto pode mudar a história, pode ser uma mola propulsora em que os heróis são apenas figuras frágeis capazes de, num dado momento, irem além dos limites esperados.
Em O Homem que Matou Vargas, Jô Soares conta a biografia de seu personagem ao longo de 40 anos de eventos fundamentais para os tempos modernos. Mas deixei de fora algumas coisas, como o crack da bolsa de Nova York, em 1929, quando ia fazer de Dimitri o secretário de um grande especulador, revela. Diante de tantas referências, que tipo de público o escritor espera para suas obras? Quem já conhece os fatos, vai divertir-se; quem não os conhece, vai saber do que se trata e também vai dar boas risadas, avisa o apresentador. Com O Xangô de Baker Street eu tive a grata surpresa de receber inúmeras cartas de pessoas que me contavam do seu imenso prazer em embarcar na história real e descobrir personagens, conta. Tudo, porém, é feito de forma leve, sem aquele tom didático de manual.
A escolha do tema não foi casual. Optei por um anarquista, porque acho que os artistas também são anárquicos, no melhor e mais romântico sentido dessa palavra, fala. Jô Soares já se prepara para escrever mais um livro, novamente com tema histórico. Só que ainda não posso revelar o que vai ser, porque estou envolvido em pesquisas para definir melhor o rumo que darei ao livro: só começo a escrever quando tenho um roteiro completo pronto na minha cabeça e sei como o livro começa, desenvolve-se e termina, afirma.
Falando em roteiro, o apresentador, embora não se tenha envolvido na transcrição para as telas de O Xangô de Baker Street, fez uma ponta no filme baseado em sua obra. É uma pequena participação ao lado do Marco Nanini, que está fantástico como o inspetor Pimenta, conta.
O Homem Que Matou Getúlio Vargas - De Jô Soares. Companhia das Letras, 342 páginas, R$ 25,00


