Para Marx, a história ocorria inicialmente como tragédia e, depois, repetia-se como farsa. Jô Soares achou que poderia ir um bocadinho além e fez dela uma comédia em ‘‘O Homem Que Matou Getúlio Vargas’’ (Companhia das Letras, 342 páginas, R$ 25,00), sua mais nova aventura literária, após o sucesso de ‘‘O Xangô de Baker Street’’ (que está sendo filmado por Miguel Farias), um hit nas livrarias que vendeu mais de 430 mil exemplares no País e teve os seus direitos vendidos para os EUA, França - onde vendeu 100 mil cópias - Espanha, Alemanha, Argentina, Grécia, Holanda, Itália, Japão e Portugal. A nova criação do humorista já chega em grande escala: 100 mil exemplares iniciais.
Como no romance anterior, Jô joga figuras ficcionais em meio a acontecimentos reais e as faz conviver, com familiaridade e em detalhes precisos, com figuras históricas. Neste caso, o ‘‘entrão’’ nos bastidores da história é um atrapalhado anarquista servo-croata de 12 dedos, Dimitri, que, por acasos absurdos e em aventuras rocambolescas, acaba por envolver-se com Mata Hari, Picasso, Madame Curie, Al Capone, Irving Thalberg, o cartunista Péricles, o ‘‘Anjo Negro’’ Gregório Fortunato e, entre muitos outros, Getúlio Vargas, é claro.
‘‘Escrevo para me divertir e, assim, nada melhor do que essa mistura de história e ficção, duas coisas que eu adoro’’, explica Jô. ‘‘Também me atrai muito a pesquisa, ler os 80 livros que precisei para fazer esse novo livro, fruto de dois anos de trabalho, em especial sobre a história do Brasil, tão fascinante e, ao mesmo tempo, vítima de pouco caso’’, diz. ‘‘Acima de tudo, como humorista, agrada-me ver como a realidade acaba superando a ficção’’, completa. Ao fim de ‘‘O Homem que Matou Vargas’’, o apresentador deixou à disposição de seus leitores a extensa bibliografia utilizada.
Mais do que justificadamente. A riqueza dos detalhes, que são inseridos na trama com a precisão de entrada e saída de personagens de vaudeville, é impressionante. ‘‘E também é uma fonte de humor, porque é possível se pensar que tudo o que não ocorreu, a ficção, poderia ter ocorrido de verdade, enquanto a realidade poderia ter sido diferente’’, analisa. Assim, apenas como um dos inúmeros exemplos, a presença de não um, mas 22 assassinos no caminho do arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo, cuja morte foi o estopim da 1ª Guerra.‘‘Na hora de colocar Dimitri lá, pensei: Como colocar mais um; daí verifiquei que havia toda essa multidão de matadores e percebi que, como a história já era um conjunto de absurdos, mais um não faria diferença.’’
Mas não espere grandes piadas no livro do comediante. ‘‘O grande humor do meu texto não é reunir piadas, mas apresentar uma visão de mundo humorada, fazer com que as pessoas percebam que as coisas podem ser engraçadas, mesmo sendo reais e que o ser humano, em suas grandezas e pequenezas, é ridículo e está sujeito aos desencontros da história’’, avalia. Os marxistas, com certeza, não gostarão. ‘‘Certo, o materialismo histórico não dá importância ao indivíduo, mas é preciso reconhecer que um gesto pode mudar a história, pode ser uma mola propulsora em que os heróis são apenas figuras frágeis capazes de, num dado momento, irem além dos limites esperados.’’
Em ‘‘O Homem que Matou Vargas’’, Jô Soares conta a biografia de seu personagem ao longo de 40 anos de eventos fundamentais para os tempos modernos. ‘‘Mas deixei de fora algumas coisas, como o crack da bolsa de Nova York, em 1929, quando ia fazer de Dimitri o secretário de um grande especulador’’, revela. Diante de tantas referências, que tipo de público o escritor espera para suas obras? ‘‘Quem já conhece os fatos, vai divertir-se; quem não os conhece, vai saber do que se trata e também vai dar boas risadas’’, avisa o apresentador. ‘‘Com ‘O Xangô de Baker Street’ eu tive a grata surpresa de receber inúmeras cartas de pessoas que me contavam do seu imenso prazer em embarcar na história real e descobrir personagens’’, conta. ‘‘Tudo, porém, é feito de forma leve, sem aquele tom didático de manual.’’
A escolha do tema não foi casual. ‘‘Optei por um anarquista, porque acho que os artistas também são anárquicos, no melhor e mais romântico sentido dessa palavra’’, fala. Jô Soares já se prepara para escrever mais um livro, novamente com tema histórico. ‘‘Só que ainda não posso revelar o que vai ser, porque estou envolvido em pesquisas para definir melhor o rumo que darei ao livro: só começo a escrever quando tenho um roteiro completo pronto na minha cabeça e sei como o livro começa, desenvolve-se e termina’’, afirma.
Falando em roteiro, o apresentador, embora não se tenha envolvido na transcrição para as telas de ‘‘O Xangô de Baker Street’’, fez uma ponta no filme baseado em sua obra. ‘‘É uma pequena participação ao lado do Marco Nanini, que está fantástico como o inspetor Pimenta’’, conta.
• O Homem Que Matou Getúlio Vargas - De Jô Soares. Companhia das Letras, 342 páginas, R$ 25,00

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