São Paulo, 29 (AE) - Apenas dois longas-metragens deste festival podem ser considerados de "pura" ficção - isto é, histórias e personagens inventados, sem nenhuma correspondência ou alusão com fatos reais: "Por Trás do Pano", de Luiz Villaça
e "Gêmeas", de Andrucha Waddington. O primeiro traz os bastidores de uma montagem teatral, mostrando como o trabalho interfere na vida pessoal dos atores. O segundo é uma adaptação de um conto de Nélson Rodrigues. Ambos revelam virtudes e insuficiências.
"Por Trás do Pano" conta bem a sua história, a de uma atriz novata (Denise Fraga) que tem a grande oportunidade de sua vida ao ser chamada por um diretor veterano (Luís Melo) para uma nova montagem de "Macbeth". Os dois são casados, ela com um pintor (Pedro Cardoso), ele com uma arquiteta (Marisa Orth), e os respectivos casamentos são alterados pelas circunstâncias da profissão. O ir e vir entre a ficção e a realidade é o que há de mais interessante no filme. Menos legal é a arquitetura dramática, frágil e pontilhada de lugares-comuns, aqui e ali.
"Gêmeas" apresenta uma nova atualização da obra de Nélson Rodrigues. No caso, o texto não é um dos seus grandes dramas, mas faz parte do conjunto de pequenas peças reunidas em volumes como "A Vida como Ela É". O conto fala de duas irmãs idênticas fisicamente, mas de temperamentos muito diferentes, opostos até. Uma estudou, é bióloga e parece uma pesquisadora metódica. Outra trabalha como costureira e é fogosa como uma messalina de subúrbio. Moram com pai e mãe, depois apenas com o pai (Francisco Cuoco), quando a morre a mãe (Fernanda Montenegro
numa ponta). Fernanda Torres interpreta o duplo papel das irmãs rivais, que se entredevoraram quando se apaixonam pelo mesmo homem (Evandro Mesquita, da Blitz).
A vantagem desse tipo de adaptação é que já parte de um texto denso e cheio de sutilezas. A desvantagem é que Nélson pode parecer, a quem o adapta, meio over, barroco e portanto, "pouco moderno". Daí a tentação de apaziguar os conflitos colocados, minimizar pequenas perversões, hoje já tidas como aceitas, etc. O drama rodriguiano, e mesmo algumas pequenas peças escritas às pressas, não pode ser tomado literalmente, mas como expressão exemplar de uma certa ética suburbana, matreira e ambivalente. E mesmo de um certo inconsciente coletivo operante na Zona Norte do Rio. Quando se esquece esses detalhes, perde-se o essencial. Mesmo que o resultado da adaptação seja perfeitamente adequado para o ponto de vista do espectador tido como médio.

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