Ficção à brasileira
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quinta-feira, 03 de janeiro de 2002
Ubiratan Brasil 
São Paulo - O ano de 2020 será decisivo para a evolução da astronáutica - justamente nesta época, pesquisadores da Nasa, a Agência Espacial dos Estados Unidos, pretendem enviar a primeira missão tripulada ao planeta Marte. Depois da conquista da Lua, em 1969, a oportunidade de deixar pegadas em solo marciano será o salto mais ousado do homem na conquista do espaço. O futuro previsto pela ficção científica está chegando, mas ainda não é como esperávamos, comenta o escritor e jornalista Jorge Luiz Calife, de 50 anos, que, com a experiência acumulada na imprensa científica, tornou-se também um criador de histórias fantásticas, como As Sereias do Espaço, seleção de contos recentemente lançada pela editora Record.
Chegamos ao esperado ano 2001, mas ainda não temos carros voadores nem cidades no espaço, observa ele, lembrando que, se o mundo hoje ainda não é o idealizado pelos escritores do início do século passado, ao menos está livre das previsões pessimistas: não corremos o risco, por exemplo, de sofrer um ataque de seres alienígenas. Mas Calife adverte que a função da ficção científica não é prever o futuro, mas promover um exercício da imaginação e o estímulo intelectual.
É o que fez em As Sereias do Espaço, 14 contos escritos entre 1982 e este ano, que apresentam feitos mirabolantes, como grupos que fazem excursões turísticas pelos planetas. Ou mesmo a facilidade de se viajar no tempo: ele imaginou a possibilidade de um cidadão nascido no século 23, se estiver entediado, dar um pulo no século 31 para ver como estão as coisas por lá. Mas, se apresenta características tipicamente brasileiras (como personagens com sobrenome Silva), a ficção de Calife é universal, especialmente por ser construída sob uma sólida pesquisa científica.
Com a evolução tecnológica, especialmente a partir da segunda metade do século passado, a literatura fantástica seguiu obrigatoriamente alguns dos passos dados pela ciência, o que exigiu dos escritores não apenas uma fértil imaginação, como também um conhecimento específico das inovações científicas. Sem noções básicas do progresso tecnológico, não é possível criar hoje uma ficção científica, que é a fusão da realidade com a imaginação, comenta Calife, que trabalhou como repórter de ciências no Jornal do Brasil, de 1985 a 1993, ocasião em que teve a oportunidade de entrevistar cosmonautas russos da estação espacial Salyut 7 e astronautas americanos da equipe do ônibus espacial.
A experiência permitiu-lhe travar contato com dados científicos que se revelaram essenciais à sua escrita. Como os novos detalhes ambientais do planeta Marte. Antes, parecia um mundo monótono, sem grandes atrativos; agora, graças às pesquisas espaciais, já é possível determinar a duração do dia, a composição da atmosfera e até a incidência de tempestades de vento. Por isso, não é possível mais criar histórias marcianas em um ambiente que não seja esse, afirma Calife, atento também às discussões sobre como vai acontecer a viagem tripulada a Marte, em 2020.
O assunto divide a comunidade aerospacial. Segundo o escritor, de um lado estão os defensores do uso de foguetes de propulsão química, que levariam até seis meses para chegar ao planeta vermelho. De outro, estão aqueles que pregam a utilização de naves de propulsão nuclear, com motores de plasma, capazes de abreviar o tempo da viagem para quatro meses.
A carreira de Calife como autor de ficção científica começou em 1979, quando ele inspirou o escritor Arthur C. Clarke a escrever uma continuação de 2001: Uma Odisséia no Espaço, filme dirigido por Stanley Kubrick cujo roteiro era de sua autoria. Tudo começou quando Calife escreveu um conto chamado 2002, no qual esclarecia o que tinha ficado sem explicação no filme - o enredo sugeria uma missão de salvamento para resgatar o computador Hal. A história agradou a Clarke, que se inspirou nela para escrever 2010: O Ano em Que Faremos Contato.
Kubrick não escondeu seu desagrado, pois a sequência praticamente explicou tudo o que ficou subentendido no original. Calife, porém, defende-se: as explicações apresentadas em 2010 já estavam no roteiro de 2001, publicado em forma de livro em 1968. Se Kubrick queria fazer mistério, por que deixou que o roteiro de 2001 fosse publicado?
O fato, além de trazer uma inesperada notoriedade internacional, contribuiu para Calife intensificar a amizade com Clarke. Assim como este, o brasileiro também tem o dom de ser profético em seus contos.
As Sereias do Espaço, de Jorge Luiz Calife. Coleção Ficção, Fantasia, Aventura. 336 páginas. Editora Record. R$ 32


