O rock progressivo suspira para saudosos, revelando-se uma contradição em termos. Posto à margem do mercado, o gênero perdeu há muito a reputação do rótulo que o consagrou nos anos 70, quando reinava nas paradas do mundo todo através de bandas como Yes, Genesis e Emerson Lake & Palmer.
A piada cruel o consagra hoje como ‘‘rock regressivo’’, embora sua influência ecoe no heavy metal atual e respinge em bandas de ponta do britpop como Radiohead ou na vanguarda da eletrônica como The Future Sound of London. Mas qualquer tentativa para restaurá-lo, leva um mico para casa.
É o que faz, sem medo de vexame, o tecladista inglês Rick Wakeman em seu novo álbum Return to the Centre of The Earth(EMI). Relegado há séculos ao ostracismo, ele volta a brindar seu fãs com suítes ornamentais de duvidosa cepa. Seu novo projeto tenta dar continuidade a Journey to the Centre of the Earth, o trabalho conceitual que lhe deu fama e dinheiro depois de sua primeira saída do grupo Yes.
Lançado há exatamente 25 anos sob inspiração da obra de Julio Verne, o disco é comemorado agora com uma sequência tão ambiciosa quanto enfadonha, dando razão à fúria destrutiva promovida pelos punks sobre os ‘‘progressivos’’, segundo a versão que ficou para a história. Wakeman, que ganhou rugas mas continua ostentando longos cabelos loiros, não poupou pompa na nova empreitada.
Gravou o material em Londres com a Orquestra Sinfônica da capital inglesa, sob a batuta de David Snell, e com o Coral Inglês de Música de Câmara, além de um time de convidados especiais que inclui o narrador Patrick Stuart (da série Star Trek), a cantora Bonnie Tyler e os músicos de rock Ozzy Osbourne (da banda de heavy metal Black Sabbath), Trevor Rabin (Yes) e Justin Hayward (Moody Blues).
ReproduçãoO Terço mistura herança progressiva dos anos 70 com fusion e ritmos brasileirosTanta pretensão, no entanto, resulta em fiasco estético difícil de ser digerido por quem acompanhou as mutações do rock - e seus efeitos na escuta - nessas duas últimas décadas. A peça, dividida em 22 seções, reivindica-se clássica adotando tom épico nos vocais, excesso de cordas e melodias circulares. Tudo burocrático, grandioso e certamente intragável até para os aficionados do gênero.
Menos solene na proposta musical, a banda O Terço também está de disco novo no mercado, esperneando para não sucumbir à extinção que arrastou suas contemporâneas na virada dos anos 70 para os 80. Expoente máximo do progressivo brazuca, o grupo paulistano liderado - ainda - pelo guitarrista Sérgio Hinds acaba de lançar o CD Spiral Words (de músicas inéditas), além de ter uma compilação com as faixas dos álbuns Criaturas da Noite (de 1974) e Casa Encantada (1976) circulando nas lojas.
O novo álbum é o 15º da banda e está sendo lançado simultaneamente nos Estados Unidos, Japão e Europa. De olho no mercado gringo, o grupo adotou o inglês nas letras. O material reúne nove canções inéditas e três versões - ‘‘Smile in a Wave (Theme From Jack Johnson)’’, de Miles Davis; e ‘‘1974’’ e ‘‘Crucis’’, ambas de própria autoria.
‘‘Crucis’’ revela influências da banda holandesa Focus, da qual são pirateadas algumas frases da canção ‘‘Hocus Pocus’’. As duas regravações são as que mais remetem ao som progressivo setentista, com sua longa duração e variações de dinâmica. Nas demais faixas evidencia-se a sonoridade fusion, além da incorporação da melodia e ritmos brasileiros, como demonstram as instrumentais ‘‘Sete’’ e ‘‘Balão’’.
A banda tenta se renovar, mas a compilação com seus antigos álbuns é que parece curiosamente levar a melhor como estímulo auditivo.ReproduçãoRick Wakeman: projeto ambicioso traz participação da Orquestra Sinfônica de LondresNelson Sato

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