Curitiba tem uma característica cultural muito particular – talvez movida pelo seu conservadorismo encontra dificuldade em aceitar novos espaços cênicos. A parcela mínima de público que dribla esse porém (não vale o exemplo dos espaços alternativos do Festival de Teatro, porque esse é um evento e não o dia-a-dia) poderá se divertir com a beleza poética e profunda do dramaturgo espanhol Valle-Inclán presente em ‘‘Pacto de Sangue – Melodrama para Marionetes e Silhuetas’’, em cartaz na sede do grupo Os Satyros. O teatro foi transformado num bar decadente e, à luz de velas nas mesas, tomando vinho tinto doce em canecas de louça vagabunda, o público acompanha o desenrolar do espetáculo.
Com um elenco afiado e talentoso sustentando a cena – destaques para Tadeu Peroni (dono da taberna), Daniel Gaggini (andaluz) e Ivam Cabral (Pepita) –, o boteco é palco de paixões e mortes, numa galeria contínua de personagens desiludidos e teimosos em querer agarrar os últimos fiapos de ilusão. Esses seres obscuros que se debatem nos seus tropeços, ainda assim insistem em caminhar, mesmo pressentindo tragédias na próxima esquina. Enfim, o contraditório faz parte de suas existências.
Concebido em tom circense, com figuras toscas desfiando histórias de amor e morte, o espetáculo comove e também faz rir – e muito. Especialmente na sequência do falecimento de uma pobre mulher, deixando o marido alcoólatra e três crianças órfãs, inconsoláveis com o desaparecimento da mãe. Porém, o drama adquire cores tão grotescas que ao público só resta o riso incontido.
O diretor Rodolfo García Vázquez – responsável pela adaptação de três textos de Valle-Inclán num só, em parceria com Ivam Cabral – optou nesta cena pelo uso de bonecos que contracenam com atores. Noutro episódio há também o recurso do teatro de sombras, sendo que a mistura de gêneros confere ainda maior autenticidade ao cabaré, ele próprio um território de ninguém.
Trabalhando com um elenco afinado e de belas vozes, o diretor amparou o tom narrativo em antigos sucessos da música brasileira. Há um fio narrativo nas letras populares que se casam com os episódios do cabaré. Não por acaso a sessão termina com ‘‘Ninguém é de Ninguém’’, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim. A platéia, testemunha dos acontecimentos transcorridos ali dentro, entende a fundo os versos entoados pelos artistas: ‘‘Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa/ ninguém é de ninguém, até quem nos abraça’’. Nesse desencanto está o resumo de tudo.
• ‘‘Pacto de Sangue...’’, até o dia 17, de sexta-feira a domingo, às 19 horas e 21h30, à Rua Comendador Macedo, 330, em Curitiba.Ingressos a R$ 15,00, R$ 8,00 e R$ 5,00. Mais informações pelo telefone (41)362-7920.

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