FHC elogia Fernanda Montenegro e Central do Brasil
São Paulo, 22 (AE) - As opiniões do presidente Fernando Henrique Cardoso, do cineasta Paulo Thiago, do diretor e ator teatral Sérgio Britto e do cineasta Anselmo Duarte sobre a premiação do Oscar: Fernando Henrique Cardoso (Presidente da República) - "Fernanda Montenegro comoveu todos nós. Só uma grande atriz conseguiria pôr tanto amor nesse papel. Este momento é mais um pedaço de sua rica história. Walter Salles Júnior mostrou neste filme a vida de muitos brasileiros. Central do Brasil é um pouco de cada um de nós. Sentimos orgulho."
Paulo Thiago (cineasta) - "A premiação de atriz foi injusta. Gwyneth Paltrow não a merecia e essa avaliação nada tem a ver com o fato de ser brasileiro. Se era para premiar alguém de língua inglesa, Cate Blanchett, por Elizabeth, seria uma premiação mais merecida. Além de frustrante para nós, a escolha foi também errada. Já a premiação de A Vida É Bela como filme estrangeiro, sem patriotada, foi justíssima. E a de Benigni foi sensacional, pois representa um marco na história do Oscar: pela primeira vez premiam um ator interpretando em idioma não inglês. Duas coisas me incomodaram especialmente na festa. A primeira, a homenagem a Elia Kazan. Ninguém discorda de seu talento e nada tenho contra premiar seus trabalhos. Mas não se pode homenagear o homem público quando se trata de alguém que delatou amigos comunistas na época do macarthismo. E essa festa do Oscar foi marcada pelo reforço ao militarismo americano. Estavam indicados dois filmes de militaristas que, ao retratar a 2ª Guerra, acabam por dar credibilidade a ações militares mais recentes. A presença do general Colin Powell numa festa do cinema é revoltante e comprova a junção entre o poder e o cinema, usado para reforçar o poderio bélico americano sobre o mundo. Voltando à premiação, acho que temos de pensar sobre a repetição de nosso papel de figurante nessa festa. O simples fato de estarmos indicados aumenta muito a audiência da festa no Brasil, na verdade uma festa para vender o cinema americano que não justifica o clima de Copa do Mundo."
Sérgio Britto (diretor e ator teatral) - "Eu tinha certeza de que ela não ganharia. Mas Fernanda ganhou prêmios muito mais importantes do ponto de vista de critérios de escolha do que o Oscar, como o prêmio da crítica americana. O problema é que todos nós nos envolvemos como o Oscar e nos esquecemos disso. Mas confesso que fiquei surpreendido com a premiação de Benigni. Ali ficou muito claro que não ganharíamos. No fundo, a gente sempre torce por um milagre. A verdade é que a Fernanda não precisa do Oscar para ser reconhecida. E não falo dessas atrizinhas de cinema americano, não. Já vi teatro em vários países e Fernanda está entre as melhores atrizes de teatro do mundo. E ontem estava lá, calma, serena, não demonstrou nenhuma decepção, pois em sua sabedoria ela esperava o resultado, só que tinha de estar lá."
Anselmo Duarte (cineasta) - "Não me surpreendeu. Em 1963, fui o primeiro brasileiro a ser indicado para o Oscar. Recebi a carta com todas as referências de hospedagem e passagens. Mas, simplesmente, não fui. O que eu pensava antes continuo pensando hoje. Esse prêmio é um engodo. Só no Brasil ocorre esse sensacionalismo. A Fernanda e o Walter Salles não precisam passar por isso. Para mim, Salles é o melhor cineasta da atualidade e na hora da entrega teve uma conduta excelente. A Fernanda também é maravilhosa e merece ganhar muito mais do que um Oscar. A Fernanda merece a Palma de Ouro. Esse não é um festival de cinema. De todos os prêmios que são entregues, só um é dedicado ao cinema estrangeiro. O Oscar é uma festa para promover o cinema americano. Tanto que o prêmio de melhor filme é entregue ao produtor e não ao diretor. Pois é uma festa organizada pelos produtores, os donos do dinheiro. Um verdadeiro festival de cinema é o de Cannes. Eles não convidam nem hospedam produtores. Cannes não tem prêmios para o produtor. Mas também não tem verba para promover o festival. É decente, organizado e o mais respeitado. Na época em que não fui à entrega do Oscar, como forma de protesto, a imprensa me condenou. E ainda hoje eu pergunto: como dizer que é o melhor prêmio do cinema se muitos filmes estrangeiros não são exibidos nos Estados Unidos? O Oscar é uma farsa. Uma reunião da família americana."





