Fetiche capitalista
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de junho de 1998
Isadora Andrade Cult Press 
Foi num boteco comprado pelos integrantes do Virgulóides que a banda compôs Bagulho no Bumba - música que colocou o grupo nas paradas de sucesso. Venderam o bar, mas não deixaram de frequentar os botequins alheios. Agora, para compor o repertório do segundo disco, Só Pra Quem Tem Dinheiro?, a banda foi buscar inspiração no bar do Seu Mané, na periferia de São Paulo. Regada a cerveja e muita pinga com limão, a banda decidiu abordar assuntos relacionados ao poder do capitalismo e compôs canções com ritmos que misturam samba e rock como Alcoólatra da Fumaça, Juventude Calhorda e História do Mundo. O dia em que a gente deixar de ir ao bar do Seu Mané, acaba a banda, brinca Beto Demoreaux, baixista do grupo.
A maioria das músicas nasceu de histórias de amigos ou dos próprios componentes do grupo, tática também usada no primeiro disco, Música para Churrasco. Mas, dessa vez, o grupo deu às histórias um tempero de protesto político e social. Na filosofia de bar não se fala em política, justifica Beto. Na música Cê Tá Com Medo, eles narram a experiência de Poodle, um amigo cabeludo que foi amarrado e espancado pela Rota - polícia da capital paulista. Henrique Lima, vocalista e compositor do grupo, aproveitou para protestar contra a agressividade da polícia. É brincando que se diz a verdade, filosofa Henrique.
Apesar de continuar com letras irônicas e engraçadas, os integrantes do Virgulóides acreditam que, com um disco mais politizado, podem ajudar a abrir a cabeça da considerada juventude perdida. O jovem canalha será o calhorda de amanhã, alarma Beto. Eles partilham a opinião que os adolescentes são pressionados pela família e acabam perdendo a noção do que realmente querem ser. Assim, tornam-se fúteis e sem projeto de vida.
Mas é esse público de mauricinhos e patricinhas que também costuma escutar o som do Virgulóides. Henrique conta que várias vezes ouviu suas músicas saírem de carros importados dirigidos por jovens bem produzidos. Não sei se eles entendem as letras. Espero que sim, ironiza Henrique, que faz questão de frisar que seu público em geral é bem variado.
Antes da fama, os integrantes do grupo gravaram um disco e procuraram várias gravadoras de São Paulo. Foram rejeitados por todas. Eles diziam que a moda era o country, justifica Beto. Foi quando, num passeio pelo centro de São Paulo, se surpreenderam com a quantidade de camelôs ali instalados. Chegaram a conclusão de que ali estava o mercado para suas músicas. Gravaram então Bagulho no Bumba, que em pouco tempo passou a tocar nas maiores rádios do País.
Para o segundo disco, Beto, Henrique e Paulinho convidaram o sambista Bezerra da Silva para participar de Alcoólatra da Fumaça. Os rapazes se especializaram na mistura rock com samba e tinham vontade de gravar com o cantor. Henrique conta que quando Bezerra aceitou o convite, chamou-os para um almoço na sua casa. Nervosos com a idéia de ver o ídolo pela primeira vez, os três foram e, ao chegar na sala, encontraram o compositor de cuecas tocando pistom na sala. O Bezerra é assim, espontâneo , diz Beto. Ele acredita que o sambista foi uma das maiores influências do trabalho do grupo. Somos que nem árvore: sem raiz ela cai, divaga o baixista.
Além de Bezerra, Rodolfo e Digão, vocalistas dos Raimundos, também dão uma canja em Só Pra Quem Tem Dinheiro?. O Virgulóides reclama das bandas atuais e do mercado fonográfico em geral. Segundo eles, os grupos estão muito comerciais e as gravadoras só apostam no que está na moda. Os músicos fazem canções como se escrevessem jingles, compara Henrique.


