Datas redondas pedem festa e com Fagner não poderia ser diferente. Para marcar 25 anos no mercado de discos - o primeiro LP foi Manera Frufru Manera, de 1973 - o cantor cearense lança ‘‘Amigos e Canções’’. O disco traz canções gravadas juntamente com outros artistas. Milton Nascimento, Djavan, Luiz Melodia, Nana Caymmi, Ângela Maria, Chico Buarque, Fábio Jr. e Ney Matogrosso, entre outros convidados. ‘‘Eu sou o mestre de cerimônias, mas a festa é coletiva’’, avisa.
Fagner conta que selecionou cada música de acordo com o perfil e o estilo do convidado. ‘‘O disco é um leque das diferenças que eu desenvolvo’’, teoriza . De fato, ‘‘Amigos e Canções’’ reúne diferentes variedades de ritmo, voz e arranjos, bem ao estilo eclético de Fagner. ‘‘Não tenho preconceito. Se eu gostar da música, eu gravo’’, garante.
Além de músicas que o consagraram como ‘‘Mucuripe’’ e ‘‘Revelação, Amigos e Canções’’ traz a inédita ‘‘Horas Azuis’’. O cantor só lamenta a ausência de ‘‘Canteiros’’, música feita em cima de um poema de Cecília Meirelles. Os advogados da família da falecida escritora o acusam de uso indevido das poesias e querem que altere o nome da canção e que, ao tocá-la, faça um discurso sobre Cecília, o que ele não admite. ‘‘Terei de tirá-la da minha vida’’, diz.
Como surgiu a idéia do CD?
Fagner - Passei a minha vida toda gravando no disco de muita gente. Cantar com outro artista é uma coisa que eu gosto. Resolvi convidar as pessoas com quem já gravei, ou com quem nunca gravei mas que tinha vontade de gravar, para comemorar esses 25 anos. Pessoas da minha geração como o Luiz Melodia. Com o Milton Nascimento, com Morro Velho. Era um sonho meu cantar esta música. O disco é uma realização minha, eu sou o mestre de cerimônias, mas a festa é coletiva.
Como foi a escolha da música para cada convidado?
Fagner - Em cada música via o perfil de cada artista. É um leque das diferenças que venho fazendo musicalmente. Os meus estilos são diferentes. A intenção era pegar para cada música um intérprete adequado. Acho que conseguimos uma unidade diferente.
Qual música do disco é mais representativa para você?
Fagner - Minha preferida é ‘‘Mucuripe’’, que já gravei três vezes. Gosto muito da participação do Djavan e do arranjo do Dori Caymmi. Ela tem uma coisa que preenche.
Por que ‘‘Canteiros’’ ficou de fora de ‘‘Amigos e Canções?’’
Fagner - Os advogados da família de Cecília Meirelles estão colocando como se eu estivesse cometendo um crime. Trata-se de uma música com quatro quadras, na qual fiz três e em uma mexi no poema dela. A música e dois terços da letra são minhas. Eles querem que eu troque o nome de ‘‘Canteiros’’ para ‘‘Marcha’’ e querem que toda vez que cante, faça um discurso falando da Cecília. Eles querem interferir na minha vida. Estou fora. Vou mexer um pouco na parte que era dela, colocar um poema novo. Infelizmente vou tirá-la da minha vida porque, com uma família dessas, é capaz dela sair do túmulo.
Você classificaria este CD como romântico?
Fagner - Diria que é bastante romântico, mas tem também meu lado regional, nordestino. Passei a vida escutando vários tipos de música. Então, fica muita informação na cabeça e você vai fazendo.
Você se considera eclético?
Fagner - Sou eclético, um resultado daquilo que ouvi. Tudo que escutei ficou gravado. Não tenho preconceito. Se gostar da música, gravo. Não quero saber de quem é. Tenho contato com o mais sofisticado e com o mais popular. Isso é o Brasil, uma mistura. Sou do Nordeste, mas ouço e toco tudo.
E como você avalia a música nordestina hoje?
Fagner - Tem um ditado que diz: quanto mais a mesa cresce, mas a cultura desaparece. Com a música por escala, a tendência é descaracterizar um pouco. A música nordestina é muito rica e os artistas mais autênticos são mais difíceis de chegar. Vai chegar na mesma moeda que chegou o axé music, o forró, um pouco descaracterizado, com este solo de banda, metendo sopro. Eu gosto da música nordestina, o baião, o forró, puxado na sanfona. Mesmo que você coloque outros instrumentos para segurar, mas que os originais venham mais destacados.Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z NotíciasFagner: ‘‘Eu sou o mestre de cerimônias, mas a festa é coletiva’’Fernando Miragaya
Cult Press

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