Brasília, 29 (AE) - Dois filmes, "Cruz e Sousa, Poeta do Desterro", de Sylvio Back, e "Hans Staden", de Luiz Alberto Pereira, parecem meio fora de prumo no quadro geral desse 32.º Festival de Brasília. Melhor para eles, já que a dificuldade de enquadramento por vezes beneficia a apreciação da obra. Back optou por uma maneira ousada de abordar a vida do poeta catarinense Cruz e Sousa. Poderia ter feito um documentário quadrado, contando a vida complicada do personagem, seus problemas com o ambiente de província, com o racismo e o fechamento cultural da sua época, etc. Preferiu ir além. Colocou o personagem em cena, mas também os seus poemas, e em primeiro plano. O filme é todo, ou quase todo, declamado, o que já põe um problema de recepção.
Mas isso é detalhe. Uma proposta desse tipo tem de buscar no seu destinatário uma espécie de cumplicidade, essa imersão no universo poético, já depurada do compromisso com o naturalismo que, à esta altura do campeonato, passa por linguagem oficial do cinema. Nesse ponto, Cruz e Sousa" não vai tão bem, pois não consegue, pelo menos o tempo todo, criar aquela atmosfera de suspensão do referente, necessário à imersão poética. Cinema poético é sempre um desafio temerário para cineastas, mesmo que o cineasta em questão seja, ele próprio, um poeta, caso de Back.
"Hans Staden" é um filme surpreendente. Em especial para quem conhece o retrospecto de obra do seu realizador (Jânio a 24 Quadros e O Efeito Ilha) e esperava um trabalho mais desconstrutivo e atrevido. Nada disso. "Hans Staden" é sobretudo um honesto relato das aventuras do alemão que ficou nove meses preso entre os tupinambás, sob constante ameaça de ser devorado, no Brasil do século 16. O filme tem méritos inegáveis: a direção correta, a fotografia precisa, o respeito aos idiomais originais dos protagonistas - boa parte é falada em tupi, mas há diálogos em alemão, francês e português.
Sente-se falta, porém, de mais densidade dramática, que no entanto é oferecida de bandeja pela situação. Imagine um personagem europeu, preso de uma tribo de canibais prestes a devorá-lo, que precisa usar de todo o engenho e arte para ir adiando a metamorfose em banquete. Perto do seu potencial, "Hans Staden" parece meio anêmico. Ainda assim, trata-se de um belo trabalho.

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