FESTIVAL Solos para jukebox
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de maio de 2003
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
A música é sempre uma boa maneira de evocar lembranças e sentimentos. Resgatá-la com o intuito de fazer uma leitura dos sentimentos humanos foi a forma encontrada pelo grupo belga Les Ballets C. de la B. na criação do espetáculo ''Just Another Landscape for Some Jukebox Money''. Esta é uma das atrações mais esperadas do 36º Festival Internacional de Londrina (Filo), com apresentações hoje e amanhã, no Cine-Teatro Ouro Verde.
O diretor Koen Augustijnen conduziu o processo dessa criação coletiva a partir de músicas de preferência dos próprios bailarinos-atores da companhia. Canções que pudessem reconfortar, acalmar, divertir, fazer esquecer ou lembrar. ''Apareceram opções muito diversas, o que dificultaria trabalhar a forma dramatúrgica. Então a idéia foi usar uma jukebox para criar solos'', conta Augustijnen. Assim nasceu ''Just Another Landscape...''.
Na montagem, está quase amanhecendo e, depois de uma noite na balada, seis jovens não têm a menor intenção de ir para casa. Passam então a depositar moedas em uma máquina de tocar músicas (jukebox) e a escolher suas canções preferidas. Bee Gees, Bach, Purcell e Haendel estão entre as selecionadas. O compositor Wim Selles, de Amsterdã, criou uma trilha sonora especial para o espetáculo, fazendo uma ligação de todas as músicas, que foram retrabalhadas.
Toda essa diversidade musical se traduz em movimento. A cada canção, os personagens expressam sentimentos que chegam aos extremos da inquietação, da fúria, do conflito, do afeto, da amargura e da alegria. Estabeleceu-se um contraste de melancolia e humor. ''É um espetáculo alegre em explosões de energia, mas tem também momentos mais interiorizados'', antecipa o diretor.
''Just Another Landscape...'' explora as múltiplas relações do indivíduo com o grupo. ''Embora não tenha texto, existe no espetáculo a construção de personagens, o que dá para caracterizar o estado de cada ator-bailarino'', comenta. Inspirada em movimentos do cotidiano, a coreografia rompe com o tradicionalismo. A companhia belga segue a tendência de unir dança e teatro buscando influência nas danças de rua.
Nesse espetáculo, explica o diretor, não se tem uma história linear. A coreografia faz uma ligação metafórica com a realidade. O objetivo do grupo é tocar as pessoas.
Les Ballets Contemporains de la Belgique, como foi batizado em 1986, é atualmente um dos grupos mais importantes da Europa, que se caracteriza por ser um coletivo de quatro coreógrafos de diferentes nacionalidades, estilos e identidades. O fundador do grupo, Alain Platel, estabeleceu a filosofia de misturar características para fazer criações coletivas.
Koen Augustijnen diz que na Europa não existem companhias que trabalham da mesma forma e essa deve ser a razão do processo do grupo ser considerado especial. ''Alain Platel é o diretor e temos mais quatro coreógrafos. Cada um tem vida própria dentro da companhia. Acredito ser isso também uma tendência dentro da sociedade. Cada um desenvolve o seu trabalho. Não tem uma figura central''.
FICHA TÉCNICA:
''Just Another Landscape for Some Jukebox Money'' - Espetáculo do grupo Les Ballets C. de La B., da Bélgica. Direção: Koen Augustijnen. Criação e interpretação: Alexandra Bachzetsis, Pieterjan Vervondel, Anja Gross, Arend Pinoy, Sylvia Camarda e Koen Augustijnen. Dramaturgia e música original: Win Selles. Iluminação: Carlo Bourguignon. Cenografia: Jean-Bernard Koeman. Duração: 65 minutos.


