FESTIVAL Realismo a toda prova
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sexta-feira, 21 de março de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Não foi idéia de Aderbal Freire Filho dirigir ''A Prova'', espetáculo em cartaz hoje e amanhã no Festival de Teatro de Curitiba, mas o resultado, ele garante, superou as expectativas. O trabalho foi indicado para três categorias do Prêmio Shell, incluindo melhor direção. A sonoplastia assinada por Marcos Ribas de Faria e a atriz Andréa Beltrão também foram indicadas nas categorias Melhor Música e Melhor Atriz. ''O cenário e o restante do elenco também merecem prêmios no júri formado por mim'', brinca Freire Filho.
O diretor de 62 anos e quatro décadas de teatro chega em Curitiba somente hoje para acompanhar a apresentação. Ontem, de São Paulo, conversou com a Folha por telefone, minutos antes do ensaio da sua próxima peça, com Marília Gabriela e Reinaldo Gianechini no elenco. Quanto à ''Prova'', ele revela que a idéia de montar o espetáculo foi do produtor carioca Wilson Rodrigues, que assistiu a montagem americana, comprou os direitos da peça e o convidou para assumir a direção.
''A Prova'' foi escrita pelo dramaturgo contemporâneo David Auburn e venceu o Prêmio Pulitzer e Tony de melhor texto. A trama se passa em Chicago e aborda os questionamentos de Catherine, uma jovem de 25 anos vivida por Andréa Beltrão, logo depois da morte do seu pai, um brilhante matemático que morre esquizofrênico. Entre diversos problemas burocráticos e angústias pessoais a resolver, Catherine quer saber se herdou do pai a genialidade ou a doença. ''Esse é um dos melhores trabalhos de Andréa Beltrão'', opina o diretor.
Para a concepção do espetáculo, Freire Filho se inspirou no pintor americano hiper-realista Eduard Hopper. ''Me pareceu uma forma de ser fiel à leitura realista do espetáculo'', argumenta. Mas o diretor tem uma maneira bastante peculiar de levar a realidade (ou o mais puro absurdo) para o palco, como já mostrou em espetáculos anteriores. Em ''A Prova'' não é diferente. A opção da dimensão plástica diz ele, ajuda. ''Mas também busquei a teatralidade exclusiva do palco, já que o objetivo não é fazer uma cópia fotográfica do texto.''
O espetáculo estreou em maio do ano passado, no Rio de Janeiro. Tem tradução e adaptação de José Almino e cenário assinado pelo cenógrafo português José Manuel Castanheira. Freire Filho é só elogios ao falar do cenógrafo que conheceu na apresentação do Balé Nacional da Espanha, em 1999, quando dirigia uma peça em Madrid. O cenário do balé era assinado por Castanheira e despertou a atenção do diretor. ''A Prova'' já é a segunda parceria dos dois. Já a música do espetáculo, que rendeu indicação ao Prêmio Shell, é resultado da primeira parceria com Marcos Ribas de Faria.
Também de São Paulo, Faria falou com a reportagem da Folha e adiantou o que o público do festival vai ouvir durante o espetáculo. ''A sonoridade principal é a guitarra e ainda três momentos de rock, com bandas americanas e inglesas.'' ''A Prova'' foi um dos espetáculos mais procurados do festival. Ontem restavam poucos ingressos para a peça, em cartaz no Guairão.
Outra boa pedida para hoje é o espetáculo ''Amor e Restos Humanos'', da Odeon Companhia Teatral, de Belo Horizonte. As apresentações acontecem de hoje a segunda-feira, no Barracão da Faculdade de Artes do Paraná (FAP), um dos poucos espaços alternativos reservados para o festival.
A peça traz o texto escrito pelo canadense Brad Frase no final da década de 80 e tem direção de Carlos Gradim. ''Um diferencial do espetáculo é que o público assiste a peça numa arquibancada suspensa a 2,10 cm do chão'', observa o diretor. O espetáculo acontece dentro de uma caixa de ferro e narra a história de um casal de amigos e seus respectivos relacionamentos. ''A idéia é que o público se sinta um pouco voyer'', diz.
''Amor e Restos Humanos'' estreou em dezembro de 2001. Um ano antes, companhia esteve no FTC com a peça ''Ricardo III'', no Guairão. Nesta edição, o mais recente espetáculo do grupo tem limitação de 110 lugares e não é aconselhado para menores de 16 anos.
O espetáculo da companhia mineira e ''A Prova'' são as duas novidades da Mostra Contemporânea hoje, que conta ainda com outras cinco apresentações (confira a programação de hoje nesta edição). ''A Ponte e a Água da Piscina'', ''A Hora em que não Sabíamos Nada uns dos Outros'', ''João and Maria''; Mire e Veja'' e ''Memorial do Convento'' entraram em cartaz ontem. ''Memorial do Convento'', que estava com os ingressos esgotados tem uma sessão extra hoje, às 22 horas.


