Festival prepara Expo-98
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segunda-feira, 02 de março de 1998
Maria Luiza Rolim Agência Folha 
Até o dia 21 de maio, o Festival dos Cem Dias faz a preparação cultural para a Expo-98, a exposição mundial que, de maio a setembro, marca o encerramento do milênio com a representação de 145 países, inclusive o Brasil, em Portugal.
O epicentro do Festival dos Cem Dias é a exposição Viagem ao Século 20, em cartaz no Centro Cultural de Belém (um imponente prédio de construção pós-moderna construído no bairro de Belém, nas proximidades do rio Tejo, o mesmo local de onde partiram os navegadores portugueses para os descobrimentos).
A mostra pode ser vista como um caleidoscópio do século que encerra o milênio e está dividida em 12 temas: velocidade, lazer, religião, saúde, morte, sexo, trabalho, alimentação, tecnologia, fronteira, mente e mito. O fascínio começa logo na entrada, onde está exposto, numa redoma, o Bluebird, protótipo do carro mais veloz do mundo. E prossegue no interior do edifício, na Galeria das Descobertas, onde o visitante vê passar Che Guevara, Mao, Marilyn, Madonna, Hitler, Hiroshima, Vietnã, Greenpeace, Aids, apartheid, Playboy, aspirina, máquina de lavar roupa... Retrospectiva de objetos e imagens que marcaram os últimos cem anos, o catálogo da mostra é uma atração à parte, para ver, ler e ajudar a pensar sobre o século 20.
Na área das exposições, as atenções voltam-se, também, para duas mostras, ambas no CCB: À Prova de Água (uma exposição internacional de fotografias que fica até 31 de maio) e Os Livros do Século (de 6 de março a 21 de maio).
A primeira reúne cerca de 380 fotografias, constituindo uma viagem através dos 150 anos da história da arte fotográfica. Com imagens de pioneiros como Roger Fenton, clássicos como Robert Demachy, modernistas como Tina Modotti, contemporâneos como Robert Mapplethorpe e intemporais como Cartier-Bresson.
A segunda propõe um itinerário por alguns dos livros mais importantes dos últimos cem anos.
No campo da dança, aguarda-se, com expectativa, a estréia em Portugal (dias 11, 12 e 13 de maio) de uma peça inédita sobre Lisboa, encomendada a Pina Bausch pelo Festival dos Cem Dias. Bausch e a Companhia de Wuppertal, para muitos, foi a escolha absoluta. O fado, aliás, passou a ser presença constante nas mais recentes criações de Pina Bausch.
Na música, uma das grandes apostas do festival recai sobre um ciclo de canções sobre poemas de Fernando Pessoa (dias 19 e 21 de maio, no CCB), encomendado pela organização ao maestro Michael Nyman. Destaque também para o ciclo Grandes Orquestras Mundiais. Com os consagrados maestros Bernard Haitink, que regerá a Orquestra do Covent Garden (dia 23 de março) interpretando peças de Wagner, Britten e Mahler; e Riccardo Chailly, com a Orquestra Sinfônica de Londres (dia 1ºde abril), que farão incursões pela música de Mahler e Wagner. Ambas no Coliseu dos Recreios de Lisboa, no centro da cidade. Os amantes de jazz terão a oportunidade de ouvir, nos dias 13 e 14 de março, no CCB, a Lincoln Center Jazz Band Orchestra, dirigida pelo célebre trompetista Wynton Marsalis.
No teatro, despertando alguma curiosidade, pelo menos entre o público português, destaca-se o musical O Rapaz de Papel, em cena até 21 de abril, no Teatro da Trindade, com encenação de Joan Font. Tudo por causa da música do talentoso Pedro Abrunhosa, um dos mais fortes representantes da nova geração de músicos portugueses - seu CD, Bandemônios, está à venda no Brasil.
Um Mar de Filmes é a proposta do Festival dos Cem Dias na área do cinema, em co-produção com a Cinemateca Portuguesa. Um grandioso festival de cem filmes, tendo os oceanos como pano de fundo. Onde cabem desde Tubarão, de Spielberg, até Pinóquio, de Disney, A Terra Treme, de Visconti, e Bonjour Tristesse, de Otto Preminger. É impossível relacionar todos os eventos de um festival com essas dimensões - embora um tanto pobre, se considerarmos que ambiciona ilustrar a produção artística do século 20. Mas o Festival dos Cem Dias é apenas a entrada para a Expo-98.
Mergulho no Futuro é o próximo festival, que continua até o fim da Expo-98. Com a participação, entre outros, de Arto Lindsay, Josef Nadj, Alain Platel, Kronos Quartet e Robert Lepage. Um verdadeiro convite para no próximo verão europeu (julho e agosto) se tomar um banho de cultura em Lisboa.


