FESTIVAL Olhares táteis em cena
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quinta-feira, 29 de maio de 2003
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
Quatro alunos do Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos (ILITC) estarão no palco do Festival Internacional de Londrina (Filo) esta noite para apresentar o resultado das oficinas de expressividade cênica, um dos Projetos de Maio desenvolvidos este ano. Em apresentação aberta ao público, às 20 horas, no espaço Alternativo, eles irão mostrar a criação coletiva ''As Cidades e os Olhos''.
Dirigida por Alessandro Antonio e Paulo Brás, o espetáculo é uma colagem de contos do italiano Ítalo Calvino, do espanhol Andrés Recio Beladiez e do londrinense Sebastião Narciso, participante da oficina. A imagem é o fio condutor da temática. Durante 25 dias, os quatro deficientes visuais trabalharam a improvisação e, a partir dos contos, criaram sua partitura de cena.
No palco estão representadas quatro cidades tiradas do conto ''A Cidade e os Olhos'', de Ítalo Calvino (Fílide, Bauci, Zemrude e Valdrada). Em cada uma estão Tatiane Quadros, Flávio Cordeiro da Silva, Sebastião Narciso e Fernando Castilho. No cenário, com espelhos individuais, cada cidade é representada por um elemento fogo, areia, argila e água. Toda a movimentação no palco é guiada pelo tato, através de passarelas e elementos que direcionam os alunos.
Os atores também usam máscaras feitas de espelho que refletem a imagem dos espectadores. ''Os contos trabalhados retratam a questão do olhar no espelho, de se ver'', diz Paulo Brás.
Para os participantes, o fato de trabalhar com espelhos e não ver a própria imagem tem um outro sentido. ''Antes eu podia enxergar, por isso lembro do meu rosto. Sinto como se tivesse me vendo no espelho'', comenta Tatiane Quadros. ''Eu me enxergo do jeito que me imagino'', diz Flávio Cordeiro da Silva. Alessandro Antonio comenta: ''Tudo que vemos, que está do lado de fora, está dentro deles, no rico imaginário dos deficientes visuais. São riquezas que desconhecemos''.
Paulo Brás pontua que do começo ao fim da encenação cada um deles tem uma emoção diferente em relação ao espetáculo, devido à própria imaginação. ''Eles ouviram o texto, leram em braile e no computador (através de um programa adaptado para deficientes visuais). O fato de não enxergarem aguça muito os outros sentidos e, consequentemente, a imaginação''.
''As Cidades e os Olhos'' é resultado de um trabalho monitorado e coordenado desde o final de março pelo arte-educador Alessandro Antonio, formado em Artes Cênicas pela UEL, com assistência de Paulo Brás. A idéia de se trabalhar a expressividade dos alunos surgiu de observações feitas a partir das oficinas de contadores de história que aconteceram nas três edições anteriores do Filo.
Desde o final de março, Alessandro Antonio vem realizando exercícios de expressão corporal e jogos dramáticos com os quatro participantes. ''Foi um tempo muito curto, mas nossa vontade é dar continuidade a esse projeto'', salienta o coordenador. Ainda não está definida de que forma o processo será levado adiante no ILITC. A idéia, por enquanto, é retrabalhar o espetáculo (que terá duração ampliada) para levá-lo a outras cidades e festivais.
FICHA TÉCNICA:
''As cidades e os olhos'', espetáculo de encerramento das oficinas de expressividade - Projeto de Maio. Direção: Alessandro Antonio e Paulo Braz. Coordenação: Alessandro Antonio. Participantes: Tatiane Quadros, Flávio Cordeiro da Silva, Sebastião Narciso e Fernando Castilho. Duração: 30 minutos. Capacidade: 220 pessoas.
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