Festival muda o formato e pode se estender para outras cidades
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sábado, 25 de maio de 2002
Jackeline SeglinReportagem Local 
Nitis Jacon, diretora do Filo, avalia o formato enxuto que o festival apresentou este ano e quer transformar Londrina em cidade irradiadora de cultura
A edição 2002 do Festival Internacional de Londrina (Filo) terminou ontem depois de 25 dias de espetáculos, shows, performances, demonstrações de trabalhos dos Projetos de Maio, oficinas e a realização de um fórum que discutiu o tema O Lugar Público da Cultura. Grupos e intérpretes de 11 países (15 estrangeiros e 50 brasileiros) fizeram a programação das mostras Londrina, Nacional/Norte/Centro-Oeste, Internacional e Cabaré.
A diretora do festival, Nitis Jacon, falou das mudanças conceituais e avaliou o evento desse ano. A seguir, trechos da entrevista concedida à Folha2.
O Filo vem adaptando o seu formato desde a mudança de 2000, quando o evento se tornou o Festival de Todas as Artes. Foram 50 dias na primeira experiência, 30 no ano passado e agora 25 dias reunindo espetáculos, projetos de inclusão social e Cabaré. O que contribui e o que atrapalha nesse formato mais enxuto do festival?
Fizemos o festival nos últimos três anos a partir da reflexão dos anos anteriores. Tivemos o evento dividido em etapas nacional e internacional separadas. Avaliamos que era mais adequado fazer tudo na sequência, com uma abrangência maior. Com os Projetos de Maio havia essa necessidade de mais tempo. Por outro lado, era muito cansativo, até para o público. Reduzimos então para 30 dias. Na medida em que fomos nos habituando com o novo formato, concluímos que seria possível realizá-lo bem em 25 dias.
O festival pode passar por novas adaptações?
Pode mudar a duração, o formato. O processo é dinâmico e variável. No fórum de debates - um dos eventos paralelos do Filo - um aspecto levantado é que em função da discussão, o aumento da demanda e a escassez de recursos, foram sugeridos novos instrumentos de sustentabilidade. Uma proposta para a região da Rede Cultural do Mercosul é a da criação de microrredes (microrregiões).
As regiões, além de serem coordenadoras da central, formariam corredores com cidades-pólos que poderiam irradiar cultura para as cidades vizinhas. Isso já começou a ser trabalhado com a extensão do Filo em Maringá. Queremos articular ainda com Campo Mourão, Toledo, Cascavel e nada impede que se expanda mais. Em Londrina, não temos teatro, mas tempos infra-estrutura técnica e agentes culturais. Londrina pode vir a ser o grande pólo do Paraná de uma rede de microrredes.
Este ano, o número de espetáculos de dança-teatro aumentou e tomou parte da grade de programação com cerca de 15 espetáculos do gênero. Apesar de ser um festival de todas as artes, ainda existe uma expectativa do público por mais espetáculos de teatro. Qual sua opinião a respeito disso?
Também senti falta de mais teatro. Assisti Copenhague, por exemplo, e saí apaixonada. E era somente ator e texto. Confesso que percebi com mais claridade essa situação nesse festival, enquanto parte do público. O que acontece é que há uma tendência a realizar esses espetáculos transdisciplinares. Há anos se falava em espetáculo total, com a utilização de outros recursos além do teatro. Houve uma explosão dessa tentativa de vanguarda. E os festivais incorporaram isso, o audiovisual, a dança, o circo, as artes plásticas. Está havendo uma incorporação e, desse ponto de vista, é muito positivo. O teatro não fica entre quatro paredes. Por outro lado, é um eterno pulsar. Começo a sentir a falta do texto e ator. Talvez o público fosse menor, menos diversificado. Mas é um momento de riqueza na evolução das artes. Essa integração é interessante. E o melhor é que é o teatro que engloba as outras artes. A dança está ganhando com o teatro, com a dramaturgia. Mas isso também terá que ser avaliado pela equipe para projetar o ano que vem.
O Cabaré é um evento que se tornou um grande acontecimento na cidade. Apesar de ser o ponto de encontro do Filo, tem concentrado um público bem mais variado, incluindo muita gente que não assiste aos espetáculos das mostras. Não há risco de o Cabaré roubar a cena e descaracterizar a idéia do festival?
Não podemos dizer que não exista essa preocupação. Mas a equipe começou a discutir o assunto dentro do próprio Cabaré. Nosso festival é cambiante, sempre mexe e dá um salto. Pode até ser que caia em um abismo, mas tem a coragem de estar mudando. A questão das pessoas que vão ao Cabaré e não ao teatro envolve duas situações: uma é que não cabe todo aquele público nas salas. A segunda é que a música popular tem um apelo indiscutível e o acesso é muito barato. Pensamos que não devemos cobrar mais mesmo. O festival deve facilitar o acesso aos bens culturais. Eugênio Barba diz que o teatro não tem público. Tem espectador. Portanto, são coisas diferentes.
Por outro lado, uma platéia diferente tem marcado presença nas salas de apresentações...
O festival está ganhando um espectador jovem, parte de uma nova platéia, que não se via antes. Muita gente diferente tem ido ao teatro. Achei extraordinário ver Apocalipse, um espetáculo forte, impactante. Tenho recebido parabéns por ter tido peito de trazer esse espetáculo para Londrina. Um espetáculo que poderia ser condenado por heresia, por ferir costumes, por ser louco, por ter um grande dispêndio de recursos para ser adaptado ao Cadeião. Achei impressionante tantos jovens, de todas as classes, assistirem ao espetáculo sem nenhuma expressão depreciativa.
Como está a situação financeira do festival este ano?
Na verdade, o orçamento inicial era de R$ 1,7 milhão. Tivemos alguns problemas com a verba do orçamento do Fundo Nacional de Cultura (R$ 100 mil), que estava contingenciada por causa da CPMF e não foi liberada. Mais uma vez os cortes começaram pela Cultura. Pelo mesmo motivo, uma emenda do deputado federal Luiz Carlos Hauly (no valor de R$ 100 mil) também não saiu a tempo. Mas tivemos verba de patrocinadores e parcerias com Maringá, com o Ministério da Cultura Espanhol (que bancou a vinda de dois grupos), da Suíça e de alguns estados brasileiros que custearam a vinda de seus grupos. Fizemos alguns cortes e arranjos e agora estamos contando com os recursos do Governo do Estado (R$ 250 mil) para zerar tudo.


