Festival justapõe as músicas do mundo
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de abril de 2000
Por Mauro Dias 
São Paulo, 09 (AE) - O Heineken Concerts define-se como um festival que justapõe as músicas do mundo, confronta-as, percebe e evidencia suas similaridades e singularidades. Este é, grosso modo, um dogma, necessariamente, também da indústria fonográfica. Percebeu-se, porém, nos quatro dias de música da edição 2000 do Heineken Concerts, que a aproximação depende mais da capacidade de quem organiza o circo do que de quem o aplaude. Mesmo que o aplauso seja entusiasmado, não significa que trapezistas e leões estejam a dar-se bem em cena.
Por exemplo: o argelino Khaled foi quem lotou a Tom Brasil, na quinta-feira, segunda noite do festival. Foi a segunda maior lotação da história da casa (depois de Eros Ramazzotti). Ele é ruim. Ele é totalmente show business, com a carga negativa que a expressão traz. Mas ele está na trilha sonora de uma novela televisiva de horário nobre e é o autor da música que serve de pano de fundo à coreografia pornoconsentida de determinada personagem televisiva.
Khaled canta em árabe. É muito pouco provável que a platéia entenda o que ele está dizendo. Mas este é outro dos botões de ouro que abrem o cofre da música pop: não importa o que está sendo dito, desde que seja possível comemorar o fato de que alguém está abrindo a boca e falando, jogando o trapezista para perto do leão. O Heineken Concerts é um grande festival, até pela oportunidade que oferece de se distinguir o que é bom do que não o é. Lenine é um maravilhoso organizador de arena, com se viu na abertura do festival, na quarta-feira.
Khaled, no dia seguinte, fez a classe média que critica a Feiticeira dançar, apatetada, como a Feiticeira, no dia seguinte. Chico César arrumou menos bem do que Lenine a cena, e ouviu, da platéia, alguém chamar por Salif Keita. Salif Keita é horrível, mas foi o sucesso da sexta-feira. No sábado, Mônica Salmaso mostrou que é uma das maiores cantoras do mundo, coisa de que já se sabia.
E a cubana Haydée Milanés, filha de Pablo, exponente da nova trova cubana, fez simpática aparição, tomando conta do espaço que seria do quarteto de Ernán Lopes-Nussa (com participação muito especial do percussionista Tata Guiness, contemporâneo da turma da velha trova cubana, a que aparece no "Buena Vista Social Club", disco produzido por Ry Cooder, filme dirigido por Wim Wenders).
São muitos elementos. Dar-lhes cor uniforme é questão complexa. Quem melhor a entendeu foi o pernambucano Lenine, que vem melhor entendendo a questão da música contemporânea há algum tempo. Lenine montou, com requintes antropológicos, a cena multicultural como quem conta a própria história, explica sua música, expõe suas raízes. Trouxe de Madagáscar o acordeonista Regis Gisavo e o confrontou com o sanfoneiro pernambucano Dominguinhos.
Trouxe da França os pop stars Fabulous Trobadors, rappers, e os confrontou com a dupla de emboladores Caju e Castanha. Trouxe de Camarões o contrabaixista Richard Bona, para ritmar com o percussionista carioca Marcos Suzano. Rendeu, como era de se esperar, o melhor espetáculo do festival. Lenine foi didático. Criou vinhetas para apresentar os convidados, fez com que o público entendesse suas intenções.
Chico César tratou de ser mais sutil, com menos resultado. Sua principal convidada foi a cantora alemã Cora Frost, uma curiosa cantora do possível cabaré possivelmente decadente da Berlim pós-queda do muro. Chico César cantava suas pós-emboladas. Cora Frost entrava em cena recitando, com o sotaque que se esperava, nomes de grandes e pequenas mulheres, ficcionais e verdadeiras: Olívia Palito. Olivia Newton-John. Nicéa Pitta. Lia de Itamaracá.
É uma leitura mais complexa desse estar-no-mundo globalizado. Chico César e Lenine formam a dupla (não compõem nem tocam juntos, atenção) mais importante do cenário musical contemporâneo brasileiro. Têm abordagens diferentes das questões da contemporaneidade. Lenine usa eficazmente os elementos da linguagem pop, pondo-os a serviço de suas emboladas, seus baiões
suas festas de pé-de-serra. Chico César faz um pouco disso, também, mas pretende deixar mais visíveis as interferências.
Torna-se, com isso, mais difícil de digerir. Seu blend é, de propósito, menos homogêneo, mais provocador, menos rotulável. Para quem teve olhos e ouvidos, a edição do Heineken Concerts foi elucidativa. De alguma forma, o festival reforça seu conceito: não existe música do mundo, mas maneiras, menos eficazes ou mais, de juntar as músicas do mundo. É uma questão industrial, pode-se dizer. Tome-se o espetáculo do albino malinês Salif Keita: ele é um pop star internacional. Canta em uma língua não-inteligível. É profissionalíssimo.
Tem duas belas negras fazendo coro e coreografias simples. Se alguém pensou numa dessas bandas que aparecem nos programas de auditório de domingo, não errou. Não há muita diferença. A música da diáspora africana enriqueceu-se, nas Américas, com o contágio dos sotaques que deram no jazz e no coco, no samba e no son. A música de Salif Keita é diferente. Não teve, parece não ter tido, contato com nada, a não ser com sua própria história. Quando o compositor saiu de Máli para a França, viajou com sua história, em forma bruta, e suas informações - todo mundo sabe tudo sobre todo mundo. Daí, pegou sua música, travestiu-a e foi ao sucesso.
Salif Keita e Khaled não são originais, são exóticos. A palavra vale, hoje, muito, embora tenha perdido sua acepção original. Exótico é, agora, o que parece diferente de nós, desde que não seja muito diferente, possibilitando, portanto, algum tipo de convivência pacífica, mas epitelial. Nada de contágio, mas assimilação. Nada de inovação, mas aproximação.
Na aproximação, ganhou Lenine, que apresentou um dos melhores espetáculos já vistos na cidade. Por querer exibir os contrastes, perdeu Chico César - o público não estava preparado para a defesa de tese do paraibano, que nada na contra-corrente da indústria cultural e jamais será mainstream, tomara. O Heineken Concerts, para o bem e para o mal, pôs o mundo em nossa cara. Para quem tenha tido olhos e ouvidos.


