Festival Internacional de Londrina reúne de diretores de teatro até cineasta do Dogma 95
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segunda-feira, 17 de abril de 2000
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 18 (AE) - Com a promessa de unir todas as artes - teatro, cinema, música, literatura, circo, dança, arquitetura, artes plásticas, moda e até mesmo culinária -, começa em maio a programação da 33.ª edição do Festival Internacional de Londrina (Filo), o mais antigo e mais importante festival internacional de artes cênicas do Brasil. "Filo 2000 - Ano 0, de Todas as Artes", o título desta 33.ª edição, dá a idéia do conceito que orienta a programação do Filo.
Nitis Jacon, diretora do festival, planeja reunir em Londrina desde criadores como o cineasta Thomas Vinterberg - representante do movimento Dogma 95 e diretor do filme "Festa de Família", que irá debater com o público após apresentações dos filmes do movimento - até o palhaço Tortell Poltrona, que trabalha com refugiados de guerra de vários países do mundo e dará oficinas de clown na periferia da cidade.
Pino Di Buduo, diretor italiano do grupo Potlach, Nicoletta Robello, do Centro de Experimentação e Pesquisa Teatral de Pontedera, e Antunes Filho, Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal estão entre os artistas do Brasil e do mundo que participam da programação. Até o dia 18 de junho, criadores de diferentes áreas terão passado por Londrina seja integrando a equipe de algum dos 60 espetáculos do Filo, seja atuando num dos 24 "Projetos de Maio", a novidade desta 33.ª edição.
Do dia 1.º ao dia 30 de maio, o Filo inaugura um novo formato de festival de artes cênicas ao promover uma série de atividades de profunda inserção social, cujo objetivo é fazer do festival muito mais que um mero evento: torná-lo fato cultural com inteferência direta na vida cultural da comunidade. Em junho
depois de ter envolvido toda a cidade - e outros Estados do País -, os organizadores concentram energias na mostra de espetáculos. Moda e culinária - Os chamados projetos de maio são os mais variados, desde oficinas de clow dirigidas pelo grupo paulistano Parlapatões com presidiários de Londrina até oficinas de gastronomia, ministradas pelo chef Antonio Maschio. E, ainda, oficinas de moda para as quais a organização do festival foi buscar a experiência da Coopa Roca, a Cooperativa das Artesãs e Costureiras da Rocinha, no Rio, que vai atuar em parceria com o Curso de Estilismo e Moda da Universidade de Londrina num trabalho com as costureiras locais.
Antunes Filho comparece com as cenas de "Prêt-à-Porter", cujo caráter didático serve perfeitamente a um dos objetivos desse festival: apurar o espírito crítico do público. Entre os grandes nomes do teatro paulistano estará ainda Gianfrancesco Guarniere, que levará poesia ao palco numa homenagem especial a João Cabral de Melo Neto. "Estamos assumindo nossa responsabilidade como agentes culturais de criar um novo paradigma de ação cultural", diz Nitis Jacon. Religar arte e sociedade, pensar a cultura como processo e não como produto de compra e venda a ser exibido e fomentar a criação são algumas das funções que essas atividades de maio querem cumprir. Algo mais que necessário num país de claudicante política cultural. "Com os projetos de maio queremos detonar processos crítico-criativos, que propiciarão até uma melhor recepção dos espetáculos do Filo".
Mas maio não será um mês só de oficinas no Filo. No dia 2, a companhia espanhola Carles Santos colocará cinco pianos no palco do Cineteatro Ouro Verde para a apresentação de "La Pantera Imperial", que abre a programação artística do festival. Simbolicamente, o espetáculo realiza no palco o conceito de transcultural que perpassa toda a edição. "A idéia de transcultural é ainda mais ampla que a de multicultural, porque se baseia no trânsito entre as diversas culturas e áreas da criação artística", diz Nitis.
"La Pantera é um espetáculo transcultural por excelência". No palco, cinco pianos, três deles de cauda, dos quais os músicos tiram acordes de uma sinfonia de Bach. "Eles mesclam no palco o canto lírico, a dança, a palavra e a música, num espetáculo de uma plasticidade maravilhosa", afirma a diretora.
Outro trabalho que certamente vai atrair os olhares de todo o Brasil sobre Londrina será realizado pelo diretor italiano Pino Di Buduo, que vem desenvolvendo em vários países o trabalho chamado "Città Invisibili". Antes de iniciar esse trabalho, ele passa pelo menos um mês na cidade conversando com diversos moradores. "A idéia é tornar visível a memória e o imaginário dos habitantes sobre sua cidade, tornar visível um cidade invisível no dia-a-dia", explica Nitis.
Trabalhando com 25 pessoas de sua equipe e mais 120 brasileiros, Buduo vai reproduzir no imenso campus da Universidade de Londrina bairros e pedaços da cidade, utilizando os mais diversos materiais, como centenas de metros de tecidos, terra e água. "Ele conversou com pioneiros - vale lembrar que Londrina tem apenas 65 anos -, visitou Museus e foi resgatando a memória da cidade", comenta Nitis.
Afinal, mesmo tão jovem, a cidade já teve bairros descaracterizados e já tem saudades do passado. "Na Cidade Invisível que será criada, os moradores vão voltar a pisar no barro vermelho no qual os pés afundavam há 40 anos". Como o crescimento rápido e desordenado não é privilégio de Londrina, caminhar por essa "instalação gigante" vai agradar aos brasileiros de vários Estados que estarão na cidade atraídos pelo festival. E nessa "Cidade" se misturam diversas linguagens artísticas: arquitetura, artes plásticas, música e teatro.
Sem dúvida o festival mais afinado com a complexidade do mundo contemporâneo, o Filo é promovido pela Universidade Estadual de Londrina e pelo Grupo de Teatro Núcleo I. Até agora, conseguiu o patrocínio da TIM - Telepar Celular, da Companhia Estadual de Eletrecidade (Copel) e do Serviço de Comunicação e Telefonia Celular (Sercomtel), além de apoios locais.


