São Paulo, 16 (AE) - O Festival Internacional de Cinema de Locarno organiza todo ano a mostra de filmes curta-metragens Os Leopardos de Amanhã, num incentivo ao jovem cinema internacional. Este ano, junto com o cinema suíço, foram convidados 14 filmes de cineastas portugueses.
Os filmes premiados foram "Entre Nós", de Margarida Cardoso, "pela maturidade do estilo", segundo o júri, e "pelo respeito com o qual aborda uma relação psicológica de grande intensidade". O prêmio, equivalente a 10 mil francos suíços, foi dividido com o suíço Esen Isik, que dirigiu o curta "O Pai Roubado".
Sandro Aguilar foi também premiado pelo filme "Estou Perto, pela busca de uma dramaturgia moderna, quer se trate da dimensão da história, como da qualidade experimental da imagem". Receberá o equivalente a 5 mil francos suíços em películas cinematográficas, oferecidas pela Eastman Kodak.
Marina Simões foi premiada, com o equivalente a 5 mil francos suíços, pelo filme "Jam Session, pela sinceridade de um projeto que reivindica um imaginário, que, atualmente, não é mais habitual".
O júri dos jovens para o Leopardos de Amanhã atribuiu o prêmio equivalente a 1,5 mil francos suíços, oferecido pelo banco UBS, ao filme "O Ralo", de Tiago Guedes e Frederico Serra. O júri acentuou que "as cores magníficas, vivas e exóticas desse curta-metragem fundem-se harmoniosamente numa hábil mistura no estilo Tarantino, de forte ironia, que formam toda a riqueza e interesse do tema, não tão surrealista como poderia parecer à primeira vista". Rita Nunes mereceu uma menção especial pelo curta "Menos Nove, pela habilidade da visão da loucura cotidiano".
Duas formações diferentes - Sandro Aguilar e Tiago Guedes tem formações diferentes, mas com objetivo igual - a renovação da cinematografia portuguesa.
Aguilar apresentou o primeiro filme, depois de terminada a escola de cinema, realizado graças a subvenções do governo, com o apoio do Icam. "O apoio financeiro do Icam", diz Aguilar
"é essencial para se transformar a estrutura financeira de um filme". Isso, ao aumentar o nível das produções, em termos de material e de condições em geral.
"Eu tinha acabado de sair da escola, quando recebi o apoio do Icam e RTP, e, para mim, foi um salto muito grande, o que se percebe ao nível formal dos meus trabalhos anteriores feitos na escola e "Estou Perto", feito fora da escola."
Para Aguilar, os incentivos ajudam na profissionalização
"apesar das condições não serem ideais". "Permite a realização de filmes em boas condições, em termos de som e qualidade técnicas das imagens", diz ele. "Tecnicamente, não se sente falta de nada, no filme; não há o compromisso de diafragmas para tentar colmatar a falta de projetores; eu tive projetores películas na quantidade necessária, podendo filmar dentro de condições limitadas, mas confortáveis."
Sobre a nova geração de cineastas, Aguilar diz que a "intenção é poder apoiar filmes interessantes e sair da produção de curta-metragens americanizados em favor de outras mais artísticas". "Isso dentro da minha própria estrutura; a curta-metragem é uma modalidade que pode parecer muito livre, mas que, na prática, é muito limitada."
Ele também acha que o Festival de Vila do Conde incentiva e revitaliza a nova geração. "Quem está a fazer hoje curtas-metragens tem um olhar diferente das gerações precedentes; alguns são provocatorios e apostam na possibilidade de não se precisar de uma história narrativa; assim, criam-se cineastas potenciais; o lado subversão da nova geração está a contaminar o cinema, no ritmo das imagens e sons das narrativas tradicionais." "Exemplos são o último filme de João Botelho e Paulo Rocha, provocatório; isso são atos terroristas; há um hiato entre as gerações", afirma.
Ele não acha que a curta-metragem assegure o salto para a longa, simplesmente "certas coisas não cabem na curta e precisam da longa". "Trata-se de uma consequência estética; estou a escrever o guião do meu primeiro longa-metragem, mas sem idéia de como será o financiamento." "Um jovem, recém-saído da escola tem dificuldades, não se costuma apostar em projeto", conta.
Estilo Tarantino - Tiago Guedes conta que para fazer o filme "O Ralo", com Frederico Serra, teve importante ajuda de um mecenas com apoio financeiro e que todos trabalharam de graça
porque existia uma grande vontade de se fazer cinema.
"Não recebemos nenhuma ajuda do ICAM, diz ele, uma pena porque precisa haver espaço em Portugal, para se diversificar a realização de filmes. O Ralo, diz Tiago, é muito diferente de todos os outros filmes da competição e, por isso, foi o que mais se aproximou do publico. Acho que seu sucesso vai dar oportunidade a outros cineastas"
"Sou critico quanto ao que ocorre em Portugal, mas isso talvez aconteça nas outras artes e em outros países. Em Portugal
só se aposta num único gênero. Depois de meus projetos de filmes terem sido rejeitados duas vezes, vi que o ICAM nunca me daria oportunidade. Foi bom ter feito como fizemos.. Um filme que custou 4 mil contos mas que parece ter custado 15 mil, pelo seu bom aspecto e acabamento. Hoje tem muita televisão interessada no nossa trabalho e conseguimos brincar de profissionais."
Tiago é bastante crítico - "não me identifico com a escola de cinema portuguesa, por ser uma escola ligada demais ao cinema francês". "É uma escola de cinema francesa." "O nosso
cinema", diz ele, "tem muita influencia americana. Meu filme tem outro ritmo. Fomos muito ostracisados pelo nosso estilo e considerados americanizados pelos cinéfilos. Atualmente, eu e Frederico estamos a preparar os guiões de três projetos, enquanto fazemos outra curta-metragem. Fui também convidado para fazer um telefilme para a televisão, depois do sucesso de O Ralo".

mockup