Antônio Mariano Júnior
De Salvador
Era para ser de um jeito, aconteceu de outro, mas o desfile de abertura do 7º
Panorama Percussivo Mundial (Percpan), anteontem à noite em Salvador, acabou, no fim das contas, causando uma boa impressão. É que por problemas técnicos o trio elétrico ‘‘Expresso 2222’’, que traria Gilberto Gil, se atrasou e não participou do tradicional desfile que anualmente ganha as ruas da capital baiana para anunciar o início da maratona de percussão. Coube a Naná Vasconcelos, o outro diretor artístico do Percpan, conduzir sozinho a peregrinação musical que saiu do Passeio Público e desembocou na Praça Campo Largo, num percurso de 500 metros, onde aconteceram apresentações de grupos afros locais, ritmistas, alguns convidados do evento e dançarinos.
Tudo estava muito formal, quadradinho mesmo, até que, de repente, o entusiasmo do público se reavivou quando Gilberto Gil finalmente apareceu sobre o trio elétrico. Junto com ele, algumas das atrações femininas da edição deste ano do Percpan: Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Margareth Menezes, Fafá de Belém e, o centro de todas as atenções e reverências, Rita Marley (viúva de Bob Marley). Pronto: desfazia-se, mesmo com quase uma hora e meia de atraso, o mal-estar causado pela ausência do cantor e compositor baiano no tradicional desfile de abertura.
Foi um show, inclusive de improvisação. O momento mais aplaudido foi quando Gil cantou ‘‘No Woman No Cry’’ acompanhado de Rita Marley. ‘‘Este ano, o Percpan tem uma presença predominante das mulheres. Em relação a Rita Marley há um cuidado maior por conta das pessoas. São atitudes majestosas, protocolares até. Afinal, ‘‘ela foi mulher do rei do reggae’’, confidenciou Gilberto Gil, após a apresentação.
De fato, a viúva de Bob Marley é considerada a principal atração internacional da sétima edição do Percpan. Ela se apresenta amanhã juntamente com duas bandas tradicionais da Jamaica: a ‘‘The Davely Kumina’’ (que se dedica a músicas ritualísticas) e The Blue Gaze Mento Band (especializada no gênero ‘‘mento’’, que aborda temas sociais e políticos).
Caberá a Rita, em sua primeira apresentação no Brasil, fazer uma fusão entre os ritmos tradicionais e contemporâneos (entre eles o reggae) jamaicanos.
A princípio, Gil queria trazer ‘‘Mother Bokee’’, mãe de Bob, que desenvolve um trabalho de resgate de ritmos tradicionais. Não deu. Questões de agenda. Foi então, de acordo com Gil, que o cantor e compositor jamaicano Jimmy Cliff sugeriu a vinda de Rita. ‘‘Levei um susto e disse: ‘é mesmo, por que não pensei nisto antes?’ É que eu estava com o pensamento fixo na mãe de Bob;
era algo quase freudiano’’ , brinca Gil.
O 7º Percpan prossegue até domingo, em Salvador. Depois segue para São Paulo, nos dias 19 e 20. No fim do mês, nos dias 26, 27 e 28, será a vez de Paris.
O evento vai em versão compacta aos dois locais. Gilberto Gil se mostra animado, mas faz uma ressalva. ‘‘A imantação do Percpan é aqui em Salvador’’, diz. Já a socióloga Beth Cayres, produtora e idealizadora do Festival, vislumbra o deslocamento com contagiante otimismo. ‘‘Tenho certeza que a resposta lá fora será boa porque o Percpan entra pela pele. Ele tem calor e aproxima as pessoas pela sua proposta’’, analisa. ‘‘Nunca tive a intenção de transformá-lo num produto; o festival cresceu naturalmente’’, complementa.
O jornalista Antônio Mariano Júnior está em Salvador a convite da organização do Percpan.

mockup