Festival É Tudo Verdade começa amanhã no Rio e desembarca na 2ª em SP
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terça-feira, 04 de abril de 2000
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 05 (AE) - São Paulo terá de esperar até segunda-feira para ver a nova edição do festival de documentários É Tudo Verdade. A mostra dirigida pelo crítico Amir Labaki começa amanhã (06) no Rio, no Centro Cultural Banco do Brasil (duas salas) e no Espaço Cultural dos Correios (mais duas salas). Em São Paulo, os locais de exibição serão o CineSesc, o Itaú Cultural, o Centro Cultural e o Museu da Imagem e do Som (MIS). Bastaram cinco anos para que o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade virasse o mais importante evento do gênero, na América Latina. Todo os anos traz inovações, amplia seu leque.
A principal novidade deste ano é a seção "O Estado das Coisas", uma nova mostra informativa, voltada para as diversas tendências do documentário contemporâneo. Mas também merece atenção a "Retrospectiva Brasil", que vai mostrar na cidade, entre os dias 11 e 16, os melhores documentários produzidos no País, de acordo com a seleção organizada pelos críticos. Labaki afirma que essa retrospectiva é a coisa mais importante realizada pelo festival. Confirma uma das intenções do evento, que é estimular a discussão sobre uma atividade fundamental, mas pouco divulgada do cinema no País. São filmes como "Cabra Marcado para Morrer", de Eduardo Coutinho, eleito o melhor documentário brasileiro de todos os tempos, "Viramundo", de Geraldo Sarno, "Imagens do Inconsciente", de Leon Hirszman, "Mato Eles?", de Sérgio Bianchi, o genial "Ilha das Flores", de Jorge Furtado. Embora segundo colocado na lista, "Di", de Gláuber Rocha, não poderá ser apresentado porque persiste a interdição judicial sobre o filme que trata do enterro do pintor Di Cavalcanti.
Organizado em duas competições principais, a mostra nacional e a internacional, o 5.º É Tudo Verdade traz, na primeira, obras como "Santo Forte", de Eduardo Coutinho, que serão exibidas com os novos documentários que estão dando o que falar no cinema brasileiro - "O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas", de Paulo Caldas e Marcelo Luna, que tanto impacto provocou no recente Festival de Recife, e "Maldito - O Estranho Mundo de Zé do Caixão", de André Barcinski e Ivan Finotti, que complementa a experiência do livro que ambos dedicaram ao mais underground dos cineastas brasileiros.
Recheada de títulos premiados, a competição internacional traz a assinatura de três dos maiores nomes do documentário na atualidade: o americano Frederick Wiseman, o holandês Johan van der Keuken e o dinamarquês Jon Bang Carlsen. Uma quarta grande atração estrangeira é o americano Jay Rosenblatt, considerado um dos mais originais documentaristas revelados na última década e premiado por seus curtas-metragens nos Festivais de Locarno e Sundance. Dois brasileiros também estão na competição internacional - "Notícias de uma Guerra Particular", de João Moreira Salles e Katia Lund, e "Os Carvoeiros", de Nigel Noble -, mais quatro representantes da América Latina. No total, são 18 os títulos selecionados na categoria internacional. Já a mostra brasileira terá 13 títulos
representando os Estados de Rio e São Paulo (com cinco filmes cada um), e Bahia, Pernambuco e Paraíba (com um filme cada um). Haverá dois júris. O internacional é formado pelos cineastas Harmut Bitonsky e Sílvio Tendler (diretor de Jango, quarto colocado entre os melhores documentários da história do cinema brasileiro) e Diane Weyerman, diretora do Soros Documentary Fund. O júri nacional reúne o diretor Eduardo Escorel, o crítico e roteirista Jean-Claude Bernardet e a jornalista Rebeca Kritsch
do jornal "O Estado de S.Paulo", vencedora do Prêmio Esso de 1995 por sua série de reportagens intitulada "Viver nas Ruas".
O festival distribui R$ 35 mil em prêmios. Além das tradicionais premiações aos melhores da competição internacional e da brasileira, serão distribuídos o Prêmio TV Cultura, que vai destacar um documentário selecionado por júri próprio da emissora e que será adquirido por R$ 5 mil, e o Prêmio GNT de Renovação de Linguagem. Uma novidade é o prêmio que o Centro Cultural Banco do Brasil, do Rio, vai dar aos favoritos do público carioca.
O 5.º Festival de Documentários É Tudo Verdade é uma realização da Associação Cultural Kinoforum, do Centro Cultural Banco do Brasil, do Sesc - São Paulo, do Itaú Cultural, da Secretaria do Audiovisual do MinC, da Secretaria de Estado da Cultura (de São Paulo) e da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.
Retrospectiva - Atração especialíssima é a retrospectiva em homenagem àquele que é considerado o maior documentarista do cinema, o holandês Joris Ivens. Labaki diz que um festival como o É Tudo Verdade teria de pagar seu tributo a Ivens. Com a colaboração do Arquivo Joris Ivens, da Holanda, o 5.º É Tudo Verdade anuncia a maior mostra de seus filmes já realizada no Brasil. Serão 22 filmes. O homem no trabalho, na natureza e a opressão social foram os temas dominantes da obra de Ivens, iniciada em 1928 com De Brug (A Ponte). Apesar do engajamento político, sempre fazendo filmes de uma perspectiva de esquerda, ele nunca deixou de ser humanista e lírico.
Todo o festival é rico, pela oportunidade que oferece ao espectador de atualizar-se com o que de mais importante se faz no documentário mundial, mas há títulos que devem estar na mira do espectador antenado. Entre os brasileiros, "O Rap do Pequeno Príncipe" usa a música para contar a história de dois homens que nascem no mesmo dia, um vira matador, o outro rapper; Paulo Caldas (co-diretor de Baile Perfumado) e Marcelo Luna partem daí para discutir a periferia, a violência urbana. O crítico Luiz Zanin Oricchio, do jornal "O Estado de S.Paulo", não hesita em definir "O Rap" como "ótimo". "Notícias de uma Guerra Particular" segue a mesma trilha, discutindo a violência urbana.
"Belfast Maine" é destaque internacional, mostrando por que Frederick Wiseman é considerado testemunha lúcida e implacável da sociedade americana, que ele vem observando com seus trabalhos desde os anos 60. Ao longo de quatro horas, ele oferece um retrato acurado do cotidiano numa cidade portuária dos EUA. Em "O Rei dos Judeus", Jay Rosenblatt recorre a imagens de arquivo para descrever sua relação com a religião, na infância. O que ele quer provar, não sem polêmica, é o elemento anti-semita existente no cristianismo.
"Gato Preto na Neve", de Anu Kuivalainen, de Finlândia
mostra o retorno para casa (e a filha) de uma mulher que matou o marido. Em "Do Esquecido ao não Lembrado", o mexicano Juan Carlos Rulfo retraça a figura de seu pai, o escritor Juan Rulfo. "Berlim Cinema", de Samira Gloor-Fadel, tem participação especial de Jean-Luc Godard e Wim Wenders.


