FESTIVAL Dois grandes autores ganham os palcos
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sexta-feira, 28 de março de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba Aconteceu por acaso. Primeiro o diretor gaúcho Luciano Alabarse montou ''Almoço na casa do Sr. Ludwick'', espetáculo que integrou a programação do Festival de Teatro de Curitiba (FTC) no ano passado. Ao estudar o texto de Thomas Bernhard, Luciano decidiu fazer uma trilogia do autor, pretexto para estudar a fundo a obra do dramaturgo holandês. O segundo espetáculo da série, ''A força do hábito'', estréia hoje, no penúltimo dia do 12º Festival de Teatro de Curitiba. A terceira, ''Praça de heróis'', deve ficar para o próximo ano.
Ao contrário do universo retratado por Bernhard em textos anteriores, ''A força do hábito'' foge do ambiente familiar para retratar a convivência de um grupo circense, que trabalha sob o autoritarismo de Garibaldi. O diretor do circo é o único personagem que tem um nome na peça. Interpretado por Luiz Paulo Vasconcellos, Garibaldi tenta fazer com que os artistas do circo ensaiem um número musical de Schubert. O detalhe é que eles não conhecem sequer uma nota musical e sabem tanto de música quanto de armas bélicas. O resultado é um verdadeiro desastre.
''Ele (Garibaldi) busca incansavelmente uma utopia. Vive em função de um sonho todos sabem, irrealizável mas todos sabem também que a vida precisa continuar'', diz Vasconcellos. O ator foi convidado por Alabarse para trabalhar com o grupo Falos & Stercus, de Porto Alegre. Os dois já haviam trabalhado juntos anteriormente, mas essa é a primeira vez que o diretor dirige a companhia gaúcha.
O interessante, na opinião de Alabarse, é que a peça reúne três gerações de atores e tem um trabalho de pesquisa intenso. ''Posso dizer com segurança que conheço a obra de Bernhard. Ele criou histórias obsessivas com personagens extraordinários'', observa o diretor.
A biografia do escritor se confunde com a sua obra. Filho de mãe solteira e muito pobre, Bernhard transfere o universo opressor que conheceu para quase toda a sua obra. ''A força do hábito é conhecida como a sua obra-prima'', diz o diretor, que montou e traduziu o espetáculo a partir de uma tradução espanhola.
Apesar da história de ''A força do hábito'' retratar o universo circense, Alabarse não lança mão desse recurso cênico na montagem. ''A força do espetáculo está na palavra'', revela o diretor, que também assina a trilha sonora. O espetáculo tem apresentação no festival hoje e amanhã e está com estréia marcada em Porto Alegre no dia 10 de abril.
''A força do hábito'' divide espaço na agenda da Mostra Contemporânea do festival com ''Filosofia na alcova'' , que também estréia hoje; a última apresentação de ''Pessoas invisíveis'', da Armazém Companhia de Teatro; ''Belarmino e o guardador de ossos'' e ''Fausto'', em cartaz até amanhã.
''Fausto'' é uma montagem da Péssima Companhia de Teatro para o conhecido texto de Goethe e foi um dos primeiros espetáculos que teve seus ingressos esgotados. Motivo que levou o grupo a fazer uma sessão extra hoje e amanhã, às 23 horas.
A rapidez com que os ingressos para o espetáculo se esgotaram pode significar duas coisas: que os bons textos são sempre um bom chamariz ou que o charmoso Teatro Paiol é muito pequeno mesmo. Ao levar em consideração a primeira, o diretor Moacir Chaves ressalta que ''Fausto'' é um texto muito comentado, mas pouco encenado.
Chaves escolheu a primeira parte (''Fausto - a tragédia de Margarida'') da gigantesca obra para levar ao palco. ''É um texto que fala do encontro amoroso, tem muita sensualidade e mostra a busca do prazer físico'', define. O diretor trabalhou com uma tradução feita especialmente para a montagem, assinada por Geraldinho Carneiro. A montagem estava marcada para estrear em outubro do ano passado, no teatro dirigido por Chaves no Rio de Janeiro. Mas como as obras de reforma do espaço atrasaram, a estréia carioca foi adiada para abril e o espetáculo foi encenado pela primeira vez ontem à noite, no festival.
Esta é a segunda vez que Chaves monta ''Fausto''. A primeira foi em 1993, num espetáculo que reunia 20 atores, entre recém-formados e veteranos. Na montagem atual são seis atores em cena, mas o diretor conta que não sentiu dificuldade na adaptação. ''As duas propostas também são diferentes'', conclui.
SERVIÇO:
- ''A força do hábito'', hoje às 21h30 e amanhã às 20 horas, no Guairinha.
- ''Fausto'', hoje e amanhã às 20 e às 23 horas, no Teatro Paiol. Ingressos a R$ 20,00.


