Curitiba - Um equívoco. Ou mais um erro. Assim pode ser a análise do espetáculo de abertura do 15 Festival de Teatro de Curitiba, apresentado anteontem no Teatro Guaíra. Esta foi a primeira vez na história do evento, que o imponente Guairão serviu de palco para abrir o festival, que se vende como uma vitrine do que acontece no teatro brasileiro. E quem esperava ver que Curitiba pode, sim, fazer parte dessa vitrine com maestria, pode ter se decepcionado. A abertura unia a Orquestra Sinfônica do Paraná, com textos lidos pelo ator curitibano Luis Melo, que se perdeu diante do tamanho do palco e do texto, longo demais para este tipo de evento. Uma tentativa desastrosa de unir a orquestra e o teatro, já que as duas artes, nesse caso, se encontraram com estranheza.
O espétáculo dirigido pelo curitibano Márcio Abreu, que no ano passado assinou a direção de ''Daqui a Duzentos Anos'' (uma das peças melhores peças do evento, também com Melo no elenco), foi dividido em duas partes. Na primeira, seis músicos da orquestra, regidos pelo maestro Alessandro Sangiorgi, davam o start para Melo contar a ''História do Soldado'', lendo textos do próprio Strawinski e do dramaturgo Jean-Luc Lagarce. Marchando e tropeçando nos textos, Melo contou, em mais de uma hora, a história do soldado que trocou seu violino por um livro para ver o futuro, rendendo-se, assim, às artimanhas do belzebú, que propôs a troca.
Na segunda parte do espetáculo, os mais de 20 músicos da orquestra subiram ao palco, preenchendo o grande espaço do teatro com a clássica ''West Side History'', de Leonard Bernstein. Um pouco mais animado, um pouco mais forte, um pouco mais imponente que a primeira parte. Mas aí, quase a metade do público que estava na platéia já tinha saído do teatro. Enquanto o espetáculo acontecia dentro do Guaíra, no hall, as pessoas aproveitaram para se divertir um pouco, destilando comentários sobre a inadequação da escolha da ''montagem'' para abrir o festival.
Mas esse equívoco não é novidade e tem raras exceções na história do evento. Ano passado, por exemplo, a excelente peça de Antunes, ''Carmem'', abriu o festival no Teatro da Reitoria depois de longos discursos dos patrocinadores e organizadores para uma platéia ouriçada e não acostumada ao minimalismo proposto pelo diretor. Mas pelo menos não choveu dentro do palco, como aconteceu em anos anteriores durante as aberturas realizadas na Ópera de Arame.
Anteontem, o que acontece foi mais uma jogada comercial e um acordo entre amigos, do que um espetáculo. E nesse caso, o evento pede um pouco mais de parcimônia da platéia. Aí vaí, então um recado para um casal de meia idade que estava na platéia e cochichava ''Isso aqui, está muito chato''. Compreendam, senhores, o exemplo utilizado pelo representante de um dos patrocinadoras do evento que afirmou que a união entre o FTC e o Teatro Guaíra aconteceu como ''uma partida de futebol.'' Na verdade, o Guaíra cedeu o campo, mas a bola tinha que ser deles. Marcio Abreu, Luis Melo e a Orquestra são muito mais do que mostraram anteontem, mas estavam presos às circunstâncias.

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