FESTIVAL DE VENEZA Os EUA, ontem como hoje
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terça-feira, 05 de setembro de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Calorosa a recepção ao americano ''Bobby'' no 63º Festival de Veneza. A exemplo de ''Good Night and Good Luck'', ano passado, o filme de Emilio Estevez foi muito aplaudido, mas é nitidamente inferior ao inventário político de George Clooney. É um trabalho empenhado e interessante, realizado com grande dose de sinceridade e emoção, mas se ressente de tratamento mais refinado. Está em competição, e foi exibido como ''work in progress'', quer dizer, o diretor ainda pode mexer aqui e ali, suprimir reiterações, arredondar a edição. Deveria fazer, mas pelo jeito não vai.
Quem se lembra de duas grandes obras de Robert Altman, ''Nashville'' e ''Cerimônia de Casamento'', pode ter uma idéia aproximada do que é ''Bobby''. É o hoje clássico filme-coral, em que uma expressiva quantidade de personagens (23, neste caso) transita pelo argumento. A função não é decorativa, mas informativa. A idéia não é congestionar a trama, mas recheá-la de humanidade crível. Nisto o diretor Altman, que este ano levou afinal seu Oscar honorário, é mestre consumado. E inimitável. Em ''Bobby'', Emilio Estevez (filho de Martin Sheen) visitou a fórmula. Foi bem. Mas Altman teria feito muito melhor, algo bem mais ácido, sutil e eficaz.
''Bobby'' conta um dia na vida dos americanos. É o 4 de junho de 1968. O cenário é o Ambassador Hotel, em Los Angeles. O fato é a eleição primária que vai confirmar o senador Robert ''Bobby'' Kennedy como candidato oficial dos democratas à presidência dos Estados Unidos. A tragédia é que naquele dia mais um Kennedy, o irmão caçula de John, será também assassinado pelo fanático Sihan Bichara Sihan, na cozinha do Ambassador, diante de eufóricos correligionários que ainda festejam o último discurso inflamado pelo liberalismo.
Inspirado mais à distancia pelo clássico/cult ''Grande Hotel'' (citado inclusive pelo personagem de Anthony Hopkins), aquele com Greta Garbo, e obviamente na trilha bem mais próxima de ''Nashville'', o filme de Estevez coloca em cena duas dezenas de personagens fictícios para avalizar seu testamento de uma América tristemente repetitiva. As vidas privadas de pessoas de idades variadas, com sonhos, esperanças e frustrações diversos, são a matéria prima deste roteiro que pretende falar do hoje como triste e burocrática retomada do ontem. O problema é certo panfletarismo que desafina o tom da narrativa.
Neste amplo leque de personagens há, entre outros, o gerente do hotel (William H. Macy) e sua mulher manicure (Sharon Stone); a cantora decadente e alcoólatra (Demi Moore) e o marido decorativo e submisso (o próprio diretor Estevez); os jovens que vão se casar pela conveniência de livrar o noivo do Vietnam (Lindsay Lohan e Elijah Wood); a dupla de aposentados (Anthony Hopkins e Harry Belafonte), o traficante (Ashton Kutcher), o casal maduro se redescobrindo (Linda Hunt e Martin Sheen), o cozinheiro filósofo (Laurence Fishburne).
Para o diretor, é preciso reinventar políticos como o senador assassinado, o mundo precisa deles. Na coletiva, porém, fez que não ouviu a pergunta sobre o envolvimento de John e Bob Kennedy no Vietnã e na invasão da Baia dos Porcos em Cuba, em 1962, quando o mundo quase embarcou, sem bilhete de volta, numa terceira guerra mundial. Mas a imprensa italiana - há exceções, ressalve-se - não parece muito crítica a este respeito, e prefere sempre o culto ao cinema americano, num estranho efeito de colonizada dependência.


