Hoje, e em todos os primeiros domingos de setembro, Veneza assiste e festeja sua secular Regata Histórica – o colorido e imponente desfile de embarcações dos mais diversos tamanhos e formatos. Um cortejo que preenche por inteira a extensa e principal ‘‘avenida’’ da cidade – o Canal Grande – e mantém vivo na memória o espírito da soberania marítima que por muito tempo deu à ‘‘Pérola do Adriático’’ riqueza, glória e poder. Cerca de setecentos anos mais jovem do que a Regata Histórica, outro evento típico veneziano está neste momento no centro das atenções culturais. A Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica, a mais antiga entre todas as similares, está completando 70 anos.
  Nascido ‘‘Exposizione Internazionale d’Arte Cinematográfica’’, na noite de 6 de agosto de 1932, no terraço do Hotel Excelsior, no Lido, como apêndice da 18ªBiennale, o evento teve logo de saída um esplêndido batismo. Convidado para participar desta edição inaugural, o francês Louis Lumière - um dos inventores do cinema ao lado do irmão Auguste - mandou um telegrama ao idealizador e mecenas, Conde Giuseppe Volpi: ‘‘Os melhores votos de sucesso para a segunda invenção do cinema’’.
  O primeiro filme projetado foi ‘‘O Médico e o Monstro’’, versão americana de Rouben Mamoulian. Na Mostra de abertura não houve competição, e todos os participantes receberam diplomas de participação. A segunda edição seguiu a fórmula da Bienal de Arte, acontecendo dois anos depois, agora já competitiva. Em 1934, dezenove países participam e os jornalistas já são 300. É instituída a Coppa Mussolini para premiar o melhor filme estrangeiro e o melhor italiano. Mas ainda não havia um júri de fato, e os prêmios saiam dos critérios do presidente da Bienal. Em 1937 surge o primeiro júri internacional, e em 37 é inaugurado em tempo recorde o novo Palazzo del Cinema, construído a partir de da grandiloquente inspiração arquitetônica fascista.
  Durante a Segunda Guerra Mundial as mostras de 1940, 41 e 42 são suprimidas, a sede deixa o Lido e é temporariamente transferida para o cinema San Marco, em Veneza. A guerra inibe o então florescente mundanismo em torno da mostra, que assume um tom mais austero e militaresco. A aliança militar com a Alemanha e os rumos do conflito impõem magras seleções de filmes. Poucos são os países participantes, muitos os filmes alemães. Também desaparecem os festivais de 1943, 44 e 45. Mas em 46, ano em que Cannes dá a largada, a mostra está de volta. Mesmo organizada de maneira simples, surge a grande novidade: a experiência da resistência se reflete nos filmes apresentados. O neo-realismo caracteriza o penoso período da Itália do pós-guerra. Volta o cinema americano e o divismo - o culto aos grandes astros do período - caminha para o apogeu. Em 1949 a manifestação é definitivamente devolvida ao Palazzo del Cinema do Lido, e é criado o Leão de Ouro de San Marco, troféu máximo.
  Nos anos 50 a fome por cinema inflama o público veneziano. Os mais de 100 mil espectadores que passam a freqüentar a Mostra obrigam a organização a programar projeções também em Mestre, a nova Veneza em crescimento no continente. O escândalo, nova faceta da sociedade e dos costumes daquele período, elege o festival cenário privilegiado. É tempo de paparazzi, de ‘‘divos’’ e divas. Em 1952, sete filmes em competição exibem no título a palavra pecado, e onze a palavra amor. Em 1954, antes da projeção de ‘‘A Romana’’, Gina Lollobrigida entra na sala com o vestido estraçalhado pelos fãs. E em 58, Brigitte Bardot surge na tela em nua plenitude. Também durante os 50 se radicalizou a disputa entre as fórmulas comercial e artística. A polêmica é tão acirrada que em 56 o júri não deu o Leão de Ouro, o que gerou a obrigatoriedade de premiação a partir do ano seguinte.
  A década de 60 encontra o boom econômico. O cinema parece não sentir a ameaça televisiva e os refletores continuam iluminando o Lido de Veneza, com sua ampla constelação de astros, italianos, americanos e franceses. Notável diretor da Mostra, Luigi Chiarini, impõe rigor artístico à seleção de filmes, destacando sem concessões o papel de resenha cinematográfica autoral e inovadora. É o momento dos autores, em vez dos países.
É a hora da inteligência, em lugar da mundanidade. De 63 a 68, o Lido recebe os jovens criadores emergentes: Pasolini, Bertolluci, os irmãos Taviani, Alain Resnais, Andrei Tarkovski. Godard, Arthur Penn, Bellochio, Truffaut. Mas a Mostra veneziana, ainda amarrada por um estatuto de inspiração fascista, não consegue soltar-se em meio aos ventos políticos libertários. É quando 68 impõe uma dramática fratura com o passado.

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