FESTIVAL DE VENEZA - Uma flauta muito mágica
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quinta-feira, 07 de setembro de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza, especial para a Folha 2 
Ingmar Bergman realizou a dele para a televisão sueca, em 1974, com muita graça e leveza, uma (outra) jóia na filmografia do diretor sueco, coerente com sua obra autoral, mas sem jamais trair Mozart. Para muitos é o melhor diálogo entre as duas artes já realizado. O problema foi que o filme não teve a ampla circulação mundial que merecia. Agora coube a Kenneth Branagh trazer para o cinema, neste ''Ano Mozart'', a versão em língua inglesa de uma das mais aclamadas e permanentes obras-primas do compositor austríaco, ao lado de ''Don Giovanni''. E ontem aconteceu aqui a estréia mundial do filme, selecionado como evento especial, fora de competição, mas recebido com pompas e honras e circunstancias. Com toda razão.
Branagh, a quem os produtores recorreram por sua extrema habilidade - e talento, convém acrescentar - em veicular Shakespeare no cinema, tornando-o extremamente prazeroso sem omitir sua magnitude dramatúrgica, realizou um trabalho tão empenhado e bem sucedido como em suas adaptações shakespearianas para ''Henrique V'' e ''Muito Barulho por Nada''.
Formalmente inventivo e engenhoso (alguns poderão até achar demasiada a mobilidade da câmera), fiel ao espírito mozartiano - o libreto em inglês é do ator/diretor Stephen Fry -, este ''A Flauta Mágica'', que custou 27 milhões de dólares, transfere a ação do século 18 para a época da Primeira Guerra Mundial. Todos os cânones do original foram respeitados - o conflito entre luz e escuridão, entre amor e ódio, e no caso específico do filme, entre guerra e paz. E para os mais puristas: sim, embora diluída, foi mantida a leitura paródica sobre iniciação maçônica do libreto em alemão de Emanuel Schikaneder.
Papageno, Pagagena, Tamino, Tamina, Sarastro e a Rainha da Noite ganham corpo num elenco maravilhoso de vozes, algumas consagradas no cenário musical europeu, outras em via de revelação. Árias difíceis, como a da Rainha da Noite e de ''Papageno'', surgem deslumbrantes respectivamente nas vozes da russa Lyubov Petrova e do jovem inglês Ben Davis.
Com a competição do 63º Festival de Veneza chegando ao final - e sem um título que faça enorme diferença e se aposse do grande premio por antecipação -, ontem foi o dia dos eventos especiais fora de concurso. Além de ''A Flauta Mágica'', a mídia se mobilizou inteira em torno de ''O Diabo Veste Prada'', que trouxe à mostra veneziana a sempre cobiçada Meryl Streep, atriz com suficiente background de qualidade para distanciar-se, e muito, de tipos mais descartáveis que sempre aportam por estas águas. E com ela a jovem promessa Anne Hathaway, que encara seu ascendente desafio de igual para igual com a La Streep
O filme é de fórmula, com selo hollywoodiano, mas feito com razoável inteligência, bom gosto e não desprovido de charme. Meryl faz a editora de uma grande revista de moda, megera que só ela, déspota, ambiciosa, cheia de filigranas de estudada sobrevivência num mundo onde todos estão à beira de um ataque de nervos e do abismo do descarte imediato. A jovem Hathaway é a assistente muito ingênua, muito lerda e muito jeca (para os padrões da ''haut couture'') que bate de frente com este entorno com requintes canibais. O roteiro às vezes é previsível e às vezes não, e faz a coisa certa ao evitar a ''cinderelização'' da personagem e a conversão da megera em bom caráter. Para quem gosta do assunto, o filme é podre de chique, e por onde passa vai fazendo surpreendentes bilheterias. O modelo, imitado mas nem de longe igualado, é o do Robert Altman de ''Pret a Porter''. No Brasil a estréia é no próximo dia 22. Volto a ele oportunamente.
Alguns títulos curiosos na mostra competição já quase encerrada, como o francês ''Nue Propriété'' (Propriedade Privada, uma metáfora, sem dúvida), de Joachim Lafosse. De volta ao festival a sempre estimulante Isabelle Huppert, vivendo a mãe de irmãos gêmeos já bem crescidos que ainda moram com ela, divorciada. O pai passa a mão na cabeça dos marmanjos, que atravancam a vida privada da mãe. Ela resolve dar um tempo dos dois e da casa enquanto decide se fica ou não com o namorado. Os irmãos entram em crise, transbordam e partem para a violência.
Ao contrário dos americanos, que raramente sabem discutir as crises familiares e optam quase sempre por comediotas inconsequentes como ''Click'' e bobagens congêneres, o cinema europeu prende o fôlego mas não tapa o nariz, e agiliza um discurso nem bem passado e nem ao ponto, mas em carne viva mesmo. Solução? Pode ser que exista, mas se houver passa necessariamente não só pela discussão do vai a porta fechadas, mas com toda a certeza no mundo exterior, este social, politicamente desajustado e bem próximo de nós.


