Ontem à noite, em cerimônia de gala na Sala Grande do Palazzo Del Cinema, o diretor americano David Lynch recebeu o Leão de Ouro pela carreira, em homenagem especial do Festival de Veneza. Logo em seguida, 'INLAND EMPIRE' foi exibido para uma platéia composta na maioria por convidados e pelo público, que paga, e caro, pelo ingresso que permite não só assistir os filmes como privar de fugaz intimidade com os muitos famosos que circulam durante o festival. Por questão de fuso horário, não foi possível conhecer a tempo e relatar aqui a repercussão do filme junto àquele público. Não deve ter sido fácil, como não foi lá muito palatável para a crítica assimilar o impacto das imagens alucinantes logo às oito da manhã.
Cinco anos se passaram desde o último vicioso pesadelo de David Lynch na tela grande. Durante este tempo, o autor realizou curtas notáveis, segundo quem viu, e se casou com Mary Sweeney, produtora do filme que está em Veneza - pediu o divórcio um mês depois.
''Se todos parassem para pensar, em silêncio, seríamos pura e muito potente energia'', diz ele numa de suas constantes declarações em que enfatiza a força da meditação e a importância da psiquê.
''INLAND EMPIRE'' retoma a mesma via sinuosa do sonho maléfico e pleno de possibilidades inquietantes, e os mesmos caminhos da identidade em perigo encontrados em ''Mulholand Drive''. O pesadelo deixado ali em suspenso está de volta, com novas faces e novos medos. Como chave única para se penetrar na sucessão de surpresas de ''INLAND EMPIRE'', temos a mulher que se vê ameaçada, no subúrbio de Inland Empire, em Los Angeles.
A mulher aparece com as feições e o corpo de Laura Dern, musa do diretor em ''Veludo Azul'' e ''Coração Selvagem''. E o argumento, que desafia toda a lógica e é impossível de colocar resumidamente em palavras, representa um quebra-cabeças misterioso, feito de alusões e remissivo àquele bem conhecido (ou bem desconhecido?) e inquietante universo labiríntico de Lynch.
O cenário proposto é mais ou menos aquele de ''Twin Peaks''. Como sempre, a trama é obscura e abundante em alternativas - o roteiro foi escrito pouco antes que cada sequência fosse filmada. Pela primeira vez Lynch rodou em vídeo digital, ''porque o celulóide é lento, embora muito bonito, e não permite a você mudar velozmente de idéia'', justificou durante a concorrida coletiva na ampla sala de imprensa do Casino. Quanto à qualidade inferior das imagens, ele acrescentou: ''As imagens são granuladas, alguns dizem que até são feias. Mas quando a imagem é pobre, existe muito mais razão para sonhar''.
Aliás, Lynch se diverte com perguntas que exigem respostas cartesianas, como por exemplo se para ele o filme faz sentido. ''Sim, faz total sentido'', e mais nada a acrescentar. Quando fala sobre a interação que faz entre imagens e sons parece um menino fascinado com as possibilidades infinitas de propor suas viagens alucinatórias.
''INLAND EMPIRE'' traz de volta a fixação lynchiana do duplo, a personagem de Laura Dern que dialoga com ela mesma. É um filme (2 horas e 48 minutos) dentro do filme, um filme sobre o cinema, mas nada assim tão rígido ou dogmático, com Jeremy Irons fazendo o papel de diretor.
Assombrado por auto-referências, por um lado a obra reúne o melhor de Lynch, aquele elemento raro, surpreendente, enigmático e nada convencional da narrativa cinematográfica, aquela viagem que parece sempre buscar coerência no nonsense. Mas em contrapartida fornece farta munição para os detratores, que enxergam por trás destas jornadas arrepiantes apenas um superego não resolvido por décadas de terapia.

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