FESTIVAL DE VENEZA - Agradável surpresa nos momentos finais
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 08 de setembro de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza, especial para a Folha 2 
Depois do decepcionante japonês ''Mushishi'', exibido na noite de quinta e incompreensivelmente escalado para a competição, restava apenas um derradeiro título a conferir entre os postulantes ao Leão de Ouro. E para alívio geral, e renovada esperança italiana após o apenas discreto ''La Stella Che Non C'è'', de Gianni Amélio, surgiu ao apagar das luzes um lindo, comovente trabalho a salvar o orgulho dos donos da casa, transformando-se ontem à noite em favorito instantâneo. Se na sessão para a imprensa a recepção ainda nos créditos finais já tinha sido intensa, e se na coletiva foi uma grande festa de reconhecimento, na exibição noturna de gala o filme recebeu a mais longa e entusiasta ''standing ovation'' de toda a mostra, com cerca de 20 minutos de aplausos e aclamações.
O único problema é que a boa surpresa chegou muito em cima da hora, como ''O Jardineiro Fiel'' em 2005, que acabou relegado por um júri obviamente já fechado entre títulos vistos ao longo da mostra. De qualquer maneira, a presidente Catherine Deneuve e seus jurados, caso já tenham distribuído seus votos - no famoso e em geral nefasto ''distributivismo'' -, vão ter que reconsiderar a premiação de hoje à noite a partir deste fortíssimo coringa que a curadoria jogou na mesa de apostas.
Segundo filme de Emanuele Crialese, cujo ''Respiro'' foi uma auspiciosa estréia há alguns anos, ''Nuovomondo'' é literalmente uma viagem que se equilibra com rara competência entre realidade e metáfora, entre Velho e Novo Mundo. É uma narrativa sobre imigrantes que deixam para trás e para sempre uma vida. Partem à procura do sonho, nesta terra desconhecida, estranha, absolutamente nova, convivendo ao lado de outra(s) cultura(s).
É a epopéia de uma família, os Mancuso, rumo à sonhada América a partir da Sicília natal. ''Nuovomondo'' está dividido em três atos com durações equivalentes, mas com atmosferas e cores diferentes Uma primeira parte é siciliana, árida, ancestral, quase primitiva, quando se decide pela partida. Um segmento intermediário acontece a bordo, em alto-mar, com as vicissitudes de uma dura travessia mesclada por curiosidade, incerteza, medo, esperança. E um fecho já nos Estados Unidos, com a triagem dos imigrantes selando de vez seus destinos.
Numa coletiva temperada por consagradora emoção - a imprensa da casa não escondeu seu deleite, muito também justificado pela duvidosa produção caseira do momento -, o diretor Emanuele Crialese só recebeu boas bolas na rede, cortadas na mesma medida. Tudo bem, nenhuma restrição ao bairrismo, afinal o filme merece cada elogio, cada mesura. Segundo ele, ''o (meu) olhar aqui nada tem de político ou nem de sociológico, nenhuma mensagem, é apenas humano''.
Há sim um discurso muito forte, e este é a profunda reflexão sobre o ato de imigrar. ''Nuovomondo'' mexe fundo na questão da identidade cultural, é praticamente todo falado em dialeto, com legendas em italiano - ''os dialetos têm uma carga sonora que o italiano não tem, são belos, naturais, poéticos, são como música, como coisa sanguínea'', disse Crialese.
''Minhas fontes documentais foram na grande maioria centenas de cartas, e como referencia cito o 'América, América', de Elia Kazan, mas em vez do tom triunfalista preferi descrever os imigrantes mantendo um distanciamento dramático, eles como fruto do imaginário coletivo'', acrescentou ele. Reverente quase a ponto da devoção, Crialese assume o fervor por Fellini, homenageado em várias sequências, uma delas maravilhosamente onírica, imigrantes mergulhados num banho de leite a sugerir a opulência da terra prometida.
Excepcionalmente hoje deixamos de publicar a coluna Reality Show, de Célia Musilli


