Uma estupenda Helen Mirren interpreta a Rainha Elizabeth II e, ''The Queen'', filme que reconstitui uma época de grandes mudanças, tragédias e sonhos (esfarrapados). A saber: a eleição de Tony Blair (Michael Sheen) em maio daquele ano de 1997, o acidente fatal com a popular Lady Di, princesa de Gales, e a crise institucional produzida nos dias seguintes à morte, com o imobilismo da monarquia diante do crescente clamor e da indignação do povo.
O audacioso, atrevido filme de Stephen Frears (''Minha Adorável Lavanderia'', ''Ligações Perigosas'', ''Alta Fidelidade'', ''Senhora Henderson Apresenta'') é também muito bom. Porque, entre uma coleção de virtudes, não é leviano, não busca a polêmica pela polêmica, não bate e se esconde. Graças a um excelente trabalho de edição que transita com diabólica desenvoltura entre o documental e o ficcional, ao muitíssimo eficaz aporte do elenco e uma narrativa refinada, elegante, obviamente ''british'', Frears realizou um trabalho matizado entre o irônico, o impiedoso, o minucioso, o emotivo e, ora, ora, também respeitoso no velho e bom estilo ''God Save the Queen'' - vale aqui o trocadilho para ''save'', de saudar/salvar sua majestade em maus lençóis.
''The Queen'' também faz um acurado inventário sobre a intimidade do poder, suas misérias e grandezas, seus aspectos épicos e patéticos. Frears é tão bom no que faz que aqui não se trata de sátira ou caricatura. O enfoque é menos benévolo com a família real do que com Blair, naquele momento alguém mais popular do que Churchill. Mas o filme, ao final, termina em parte redimindo Elizabeth e o príncipe Charles. Resta um travo de melancolia com relação àqueles tempos em que a ascensão do novo governo trabalhista inglês autorizava alimentar a utopia de uma modernização que Blair não levaria avante, afundado na aventura belicista do colega Bush.
O forte e influente papel das assessorias de Blair e do Palácio de Buckingham, a triste participação do príncipe Philip no episódio - ele manteve toda a família no refúgio escocês de Balmoral e o impressionante assédio mediático são pontos que ''The Queen'' trabalha com muitas perspicácia.
Há uma saia-justa para Frears resolver, embora ele não esteja superdimensionando o fato. Para esta primeira exibição mundial do filme, a monarquia inglesa enviou a Veneza uma equipe de assessores jurídicos para avaliar se cabe ou não processos legais, visando a uma possível interdição da estréia comercial do filme na Inglaterra prevista para o próximo dia 15. Ao que tudo indica, todas as precauções foram tomadas pela produção, e tudo o que poderia causar problemas está gravado ou fartamente documentado.
E até o momento, quem pode concorrer com Frears na corrida aos principais prêmios do 63º Festival de Veneza é o veteraníssimo Alain Resnais, patriarca da Nouvelle Vague, que apresentou uma comédia de costumes - o rótulo é reducionista e empobrecedor mas vale - deliciosa, um filme coral sobre as relações entre diversos personagens de gerações diferentes, todos marcados pela solidão, pela repressão emocional e afetiva e pela falta de comunicação, numa Paris emoldurada pela neve que não pára de cair. ''Medos Privados em Lugares Públicos'', título literal da peça original inglesa, ou ''Corações'', que Resnais considera mais adequado, traz diálogos e situações de raro brilho na dramaturgia cinematográfica contemporânea.
Aos 84 anos, o diretor de títulos tão seminais como ''Hiroshima Mon Amour'', ''Ano Passado em Marienbad'', não dá sinais, na tela e ao vivo, de que está para se aposentar. Felizmente já está com novo projeto em andamento.

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