Para ouvir Noel Rosa é preciso também ver os personagens de sua música que aparecem, como que em uma crônica - um jeito particular de escrever, que somente poderia pertencer a um filósofo do samba. ''Noel'', espetáculo em homenagem aos 70 anos da morte do Poeta da Vila, será apresentado hoje, às 20h30, no Teatro Marista, dentro da programação do 27º Festival de Música de Londrina (FML), que sobe o morro e desce ao asfalto com o ''arauto das aspirações cariocas'' para revelar em cada beco e em cada esquina de sua música, a genialidade de um dos maiores compositores brasileiros.
O show com direções musical de Sérgio Averbach e cênica de Márcio Abreu estreou no ano passado, em Curitiba. Em janeiro, ''Noel'' foi apresentado no Rio de Janeiro.
Para montar um show, que percorre 16 composições de um autor com mais de 250 músicas, foi necessário cerca de sete anos de pesquisa em que o ator, produtor e idealizador, Márcio Juliano, mergulhou na obra do poeta. ''Busquei as gravações originais e acabei descobrindo uma coletânea com todas as canções de Noel. Embora também seja cantor, a minha formação principal é de ator, a minha experiência maior é de teatro, o que me chamou a atenção foi a maneira como o compositor escrevia, como se fosse um cronista'', ressalta Juliano.
Além do gosto pessoal, que selecionou clássicos, como ''Feitiço da Vila'', ''Último Desejo'', ''Conversa de Botequim'', ''Três Apitos'', ''Gago Apaixonado'', ''Fita Amarela'', entre outros, o idealizador do show lembra que procurou escolher músicas que tivessem relação entre si, levando ao palco o humor característico do compositor.
''A questão cênica no espetáculo é a partir das imagens e idéias que aparecem nas canções, não sendo concebido como teatro, mas exploramos o clima nos ensaios em que as coisas engraçadas iam aparecendo, sendo incorporadas ao show'', conta Juliano.
Além dos instrumentos convencionais do samba e choro e de inserir bateria, guitarra e teclado, o elenco de músicos tira som de caixa de fósforos, rodas de bicicletas, pente e latas de alumínio nos arranjos criados especialmente para o espetáculo, com nítidas influências da música contemporânea.
O show ainda traz as participações do percussionista e flautista Gabriel Schwartz, o violonista Ale Age, o pianista Marcelo Torrone e da cantora Daniele Montuleze.
O compositor da Vila também é desenhado pelos comentários de Aracy de Almeida (1914-1988), uma de suas maiores intérpretes - uma pitada a mais de humor no espetáculo.
Ao desenvolver a sua obra em curto espaço de tempo, entre 1929 e 1937, Noel é a maior referência, como compositor popular, de sua época no Brasil. Ele morreu aos 26 anos, mas se tornou o grande inovador de nossa lírica e o primeiro a mostrar que tudo: a fome, miséria, jogo de bicho, assassinato, roubo, homossexualismo, bebida e corrupção, podem acabar em samba.
No espetáculo tudo isso é costurado como se fosse uma única música, sem pausa para aplausos, uma deliciosa crônica para ser lida e ouvida num só fôlego.

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