São Paulo, 29 (AE) - A diretora Nitis Jacon anunciou hoje a programação para o ano 2000 do Festival Internacional de Londrina, o Filo, um dos mais importantes e o mais antigo festival internacional de artes cênicas do País. Com previsão para durar 13 dias - caso os organizadores consigam o apoio oficial imprescindível, além de parceiros na iniciativa privada para arcar com um orçamento calculado em R$ 3 milhões - o Filo vai reunir entre os dias 6 e 18 de junho em Londrina grupos do Brasil, Itália, França, Alemanha, Canadá, Holanda, Hungria, Grã-Bretanha, Espanha, Argentina, Chile, Cabo Verde e Portugal.
Com o anúncio da nova concepção e da ambiciosa edição do próximo ano, foi lançado o livro "1968 - 1988 - 2000 - Filo - Uma História", ilustrado com 45 fotos e contendo textos que narram as transformações do festival ao longo de seus 32 anos de existência. Nitis lançou ainda o cartaz da próxima edição que mostra vários artistas que já integraram o festival - entre eles o mestre de butô Kazuo Ohno e a atriz Roberta Carrieri do Odin Theatre do diretor Eugenio Barba.
No 2000, o conceito de transcultural que vem orientando a escolha da programação nos últimos anos foi ampliado e a nova edição ganhou o título de Filo 2000 - Ano 0 - De Todas as Artes. "Mais uma vez o festival transforma-se e escolhemos esse título para fugir de uma denominação que nos amarrasse num rótulo", diz Nitis, diretora e fundadora do Filo. "Dessa forma, no outro ano podemos fazer o Filo ano 1, seguido da denominação apropriada ao seu tempo."
O Filo surgiu em 1968, como um festival universitário regional em uma época em que o espaço acadêmico representava um foco de resistência cultural. Acompanhando os tempos, passou de estudantil a profissional, de regional a nacional, latino-americano a partir de 1988 e, um ano depois, já tinha convidados europeus. Na excelente edição do ano passado, o Filo traduziu em sua programação o conceito de transcultural, diferente de multicultural, na medida em que propiciou uma interação entre várias formas de arte.
Desta vez, a organização quer ir além do rompimento das fronteiras entre as artes para transpassar as da exclusão artística, envolvendo toda a cidade de Londrina e periferia no festival. Daí o convite, por exemplo, ao grupo italiano Potlach dirigido por Pino di Budio, já confirmado, que vai trazer o espetáculo multicultural "Città Invisible".
Trabalho antropológico - Utilizando quilômetros de panos
telas, efeitos musicais, atores, cenógrafos e músicos, o objetivo do Potlach é tornar visível o que o olhar viciado pela rotina não vê no espaço urbano. Trata-se de um trabalho antropológico, já que é realizado de forma diferente em cada cidade, após uma profunda pesquisa da geografia e da cultura local.
Isso não significa relegar o tablado ao segundo plano. Os palcos da cidade abrigarão espetáculos como "Esperanto", da Companhia Smola Teatre de Barcelona, cujo tema é a morte ou o grupo alemão Volksbuhne Am Rosa Luxemburg, que fala sobre os excluídos da sociedade moderna no espetáculo "Murx, Una Velada Patriótica". E ainda os mineiros do Grupo de Dança Primeiro Ato
com o espetáculo "Beijo nos Olhos... na Alma... na Carne..." inspirado na peça O Beijo no Asfalto, de Nélson Rodrigues.
Além dos grupos que estarão na programação de junho, como o Potlach, há ainda os que participam dos chamados Projetos de Maio. A organização planejou 20 projetos de forte inserção social para se desenvolver no mês de maio, em Londrina.
Entre eles, vale ressaltar o convite à diretora Nicolleta Robello, do Centro de Experimentação e Pesquisa Teatral de Pontedera, na Itália, onde trabalhava o diretor Grotowski, para realizar uma oficina teatral baseada na tragédia "Antígone", de Sófocles, com atores da terceira idade.
Reconhecido internacionalmente, o clown Tortell Poltrona
de Barcelona, Espanha, que atua em campos de refugiados e esteve em Kosovo e Saravejo, também participa dos Projetos de Maio. Criador do movimento Palhaços Sem Fronteira ele vai apresentar o espetáculo Pós Classic" em áreas carentes de Londrina, onde realizará uma oficina. Pelo menos cinco desses projetos terão continuidade depois do festival. "Não queremos impor nada, mas sim promover uma sensibilização", diz Nitis. Segundo ela, não assumir a responsabilidade para com a cultura e o desenvolvimento do senso crítico é deixar espaço para os picaretas, para a manipulação dos mercadores da arte.
"Sabemos que a exclusão não é somente econômica, mas cultural; temos a ambição de romper os guetos do conhecimento excludente e resgatar a arte como prática comunitária orgânica." São 17 os grupos internacionais já convidados pelo Filo. Alguns, como o italiano Polatch, já estão confirmados enquanto a vinda de outros, como o espetáculo multimídia "Orfeo", dos canadenses Michel Lemieux e Víctor Pilón, ainda depende da captação de recursos.

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