Londrina, PR, 07 (AE) - Se a arte é a vitória do homem sobre o cotidiano, a descoberta de um novo olhar sobre a vida, um olhar não viciado na mesmice do dia a dia, mais uma vez os organizadores do Festival Internacional de Londrina (Filo) acertaram na escolha da programação. Já na primeira semana do evento - iniciado na terça-feira com a atriz Denise Stoklos apresentando o solo Desobediência Civil para um público que lotou os 770 lugares do Teatro Cine Ouro Verde - três espetáculos de linguagens diversas surpreenderam pela radicalidade de proposta e qualidade artística. Dois deles, por serem apresentados fora do espaço teatral, quebraram mais do que as expectativas sobre o fenômeno teatral, quebraram a rotina da cidade.
No tradicional palco, surpreendeu a mais recente criação do coreógrafo belga Wim Vandekeybus, inédita no Brasil, In Spite of Wishing and Wanting. O desejo, tema do espetáculo, ganhou forma na interação entre um curta-metragem de 20 minutos baseado em dois contos do escritor Julio Cortázar e as palavras e gestos de 12 bailarinos, entre eles Wim. Tudo ao som da trilha criada especialmente para o espetáculo por David Byrne, ex-líder do Talking Heads.
A mais pura poesia minimalista num templo de consumo. Diante de muitas e sofisticadas vitrines de um imenso shopping center local, o grupo brasileiro Caixa de Imagens instalou-se com seu teatro de bonecos de cerca de 4 centímetros e emocionou o público, que formou uma enorme fila para tirar retrato com um inacreditável fotógrafo lambe-lambe.
A rua foi o espaço escolhido pelos cinco integrantes - quatro atores e uma atriz - do grupo francês Cacahute para suas apresentações. Quando se fala em teatro de rua, logo se imagina um grupo vestido e maquiado com extravagância, alguns efeitos cômicos e, por fim, um simpático ator passando o chapéu. Nada mais distante desse grupo formado há 12 anos, integrado por ótimos atores que trabalham sobre temas tabus - sexo, morte, manipulação do corpo pela publicidade - numa proposta radical de interferência no cotidiano. "Seria impensável passar o chapéu depois do que fazemos", diz Pascal Larderet, diretor da companhia. Com encerramento previsto para domingo, o Filo inicia amanhã (08) sua segunda semana de programação já com saldo positivo.
Uma feira livre no centro de Londrina foi o local escolhido, em pleno feriado de Corpus Christi, pelos franceses do Cacahute para um passeio: os atores vestidos apenas de cuecas, meias, sapatos e a atriz de calcinha e sutiã. Comportando-se com muita naturalidade, cumprimentavam as pessoas com um "tudo bem" carregado no sotaque, decidiam o que comprar
tiravam fotos uns dos outros como turistas normais. "Trabalhamos com a hipocrisia e o tabu do corpo; se essa seminudez é aceita na praia, porque choca tanto em outro local?", questiona Larderet.
As imposições da sociedade de consumo são também foco do trabalho crítico do grupo. "A publicidade impõe que só corpos perfeitos têm direito à exposição, por isso é importante o despudor de exibir com naturalidade nossos corpos." O Cacahute apresenta oito performances diferentes, uma por dia, durante o festival. Numa delas, os atores transfomam-se em incontroláveis bebês, cuidados pela mãe/atriz. "Um bebê faz coisas interditas aos adultos", explica Pascal.
Surpresa - Eles não avisam qual será a performance do dia. "No nosso trabalho é importante que as pessoas ignorem tratar-se de teatro, o que está difícil aqui por causa das câmeras de TV e fotógrafos", diz Pascal. Mas conseguiram. Na saída da feira, driblaram cinegrafistas e fotógrafos despedindo-se do público, para logo depois descer da condução e seguir a pé, em trajes íntimos, até o hotel. "Isso aqui não é praia, não", resmungou um transeunte. "Esse aí precisa de um regime", comentou outro. "Depois eu é que sou louco", gritou um mendigo.
"Bonjour, bonjour", acenou feliz uma senhora que identificou "aqueles franceses do festival que ontem carregavam o caixão". Na véspera, os atores caminharam pelo calçadão central da cidade, como se fossem uma família pobre a caminho do cemitério para enterrar a mãe. O viúvo ia numa cadeira de rodas e não raro precisava de ajuda em degraus. Um parente, surpreendido na sacada ainda de cuecas, pulou para a rua onde terminou de vestir-se. Um filho desmaiou e foi ajudado pelos curiosos.
"A morte é um tema tabu, o caixão assusta e nossa sociedade cada vez mais empurra essa idéia para longe", argumenta Pascal. Apesar do tema, nada havia de mórbido na arriscada performance. A primeira reação de susto com o caixão imediatamente se transformava em riso diante da cena patética do choro dos atores abraçados aos curiosos. "Queremos provocar novas formas de olhar o corpo, a morte, a sexualidade", afirmou Pascal.
Com absoluto domínio cênico e muita habilidade para comunicar sem constranger ou agredir, sob a aparente naturalidade os atores do Cacahute revelam um trabalho elaborado, de grande teatralidade.
Foi também com outro brilho no olhar, diferente daquele provocado pela ansiedade diante da quantidade de ofertas nas vitrines, que as pessoas saíam do shopping center após assistir ao espetáculo do Grupo Caixa de Imagens, que passa por Londrina e depois segue para representar o Brasil nos festivais de Berlim
na Alemanha, e Avignon, na França.
Com um fone no ouvido, o espectador senta-se em frente de uma dessas máquinas fotográficas de lambe-lambe de praças. É convidado a olhar pela lente como se fosse ele próprio fotografar alguém assim que a música inicia. O que vê então é um velhinho lambe-lambe se preparando para fotografar o espectador.
Impressionam os gestos e as expressões do simpático velhinho, a iluminação do curto espetáculo, a preparação dos pequenos objetos que utiliza. No fim, cada um ganha uma foto e uma mensagem, sempre recebidas com uma expressão de encantamento que só a contemplação de gente proporciona, jamais de um produto. "Eu não resisti e acenei de volta para ele", comentou uma adolescente. "E eu até joguei um beijo", completou a amiga.

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