Festival de Joinville exibe novo perfil
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segunda-feira, 29 de julho de 2002
Ana Francisca Ponzio<br> Agência Folha 
O Festival de Dança de Joinville encerrou sua 20 edição no último sábado dando sinais de mudança. Voltado para a competição de escolas de balé de todo o Brasil, o evento catarinense vem abrindo espaço para grupos profissionais que desde o ano passado contam com a Mostra Contemporânea, realizada como programação paralela.
''Futuramente, a mostra competitiva de alunos será uma das atividades de um evento mais abrangente, capaz de congregar a diversidade de expressões da dança brasileira'', diz Ely Diniz, produtor do Festival, que é realizado pelo Instituto Festival de Dança de Joinville.
Duas décadas atrás, o Festival de Joinville surgiu para suprir demandas das academias de balé, que por meio do evento poderiam proporcionar a seus alunos a experiência do palco. Porém, o formato competitivo, com jurados escolhendo os melhores, acabou gerando uma compreensão equivocada da dança por parte dos participantes e do público.
Para as academias, as vitórias no Festival de Joinville tornaram-se chance de conquistar maior quantidade de alunos. Com isso, a corrida ao primeiro lugar passou na frente do depuramento artístico. Limitando-se aos apelos atléticos do balé clássico, a maior parte das escolas passou a preparar campeões olímpicos em vez de artistas e a platéia cativa gerada pelo festival, formada principalmente por estudantes em férias, também adotou a postura de ver dança como uma disputa esportiva e barulhenta.
Contudo, o público numeroso que o festival foi atraindo gerou um movimento significativo em Joinville, azeitando os setores comercial e hoteleiro da cidade. Neste ano, o enorme Centreventos Cau Hansen, onde a competição se realiza, chegou a receber 50 mil espectadores durante as 11 noites de espetáculos.
Embora tenha aperfeiçoado sua organização, criando uma estrutura ausente em muitos eventos profissionais do país, o Festival de Joinville tornou-se alvo de críticas, por conta das deturpações educacionais que o modelo competitivo gerou. Contudo, segundo Diniz, nos últimos anos vêm ocorrendo esforços para mudar mentalidades e fazer com que o festival contribua efetivamente para o desenvolvimento da dança brasileira.
''Não é possível mudar tão rapidamente algo que se cristalizou em décadas. Estamos mudando gradativamente, mas com firmeza, e garanto que dentro de dois ou três anos o festival já será bem diferente'', afirma o produtor.
Com patrocínio de R$ 1,2 milhão, proporcionado pela Petrobras, Tim, Athletic Way e a rede de lojas Salfer, o festival deste ano mostrou que está tentando adensar seu conteúdo por meio de uma programação de cursos práticos e teóricos que levou para a cidade especialistas diversos. Também para seu conselho consultivo, o evento está requisitando profissionais reconhecidos, como Ivonice Satie e o coreógrafo Alejandro Ahmed, do Grupo Cena 11. ''É preciso aproveitar e aperfeiçoar o mercado de trabalho criado pelo festival'', diz Ahmed.
Neste ano, os bons sintomas vieram da Mostra Contemporânea, que difundiu a qualidade criativa de espetáculos como ''Deserto'', da coreógrafa gaúcha Jussara Miranda. E o melhor sinal de boas perspectivas ocorreu na própria mostra competitiva, que abriu-se para a criação contemporânea e surpreendeu com as ótimas propostas de jovens coreógrafos, como Andrea Pivatto, Fernando Azevedo, Lavínia Bizotto e Kleber Damaso.


