Festival de Gramado volta a ser mais brasileiro
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de agosto de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>De Londrina <BR>Especial para a Folha 2 
Começa pela denominação: Festival de Gramado - Cinema Brasileiro e Latino, e não mais o contrário. A partir deste ano, a organização está revertendo a prioridade latina, imposta a partir de 1990 pela situação então catastrófica da cinematografia brasileira, a chamada era das trevas, ou o período Collor de cultura audiovisual arrasada. Felizmente a internacionalização permanece, mas os corredores se alargaram novamente para a passagem da nova e irrequieta produção brasileira, crescente no âmbito das ultimas edições. Ainda não muita quantidade, mas predicados vistos e aprovados por milhares de espectadores Brasil afora, e com aval da crítica. Hoje, às sete e meia da noite no Palácio dos Festivais, quando for oficialmente aberta a mostra na serra gaúcha e a primeira imagem brasileira bater na tela, espera-se que Gramado reviva um tempo - os anos 70 e boa parte dos 80 - em que o filme brasileiro era o centro das polêmicas e dos debates, e que volte a ser o espaço vital para a divulgação, discussão e incentivo à retomada definitiva da produção nacional.
Para marcar ainda mais o momento, Gramado-2001 programou duas mostras de longas metragens competitivas e autônomas. Na primeira estão agrupados os convidados brasileiros, cinco ao todo, concorrendo a 12 prêmios Kikito, recompensas em dinheiro e um carro. Na outra, quatro produções latinas, também convidadas, concorrem a uma premiação independente e mais modesta. Não há, portanto, confronto entre brasileiros e estrangeiros.
O restante da programação obedece ao formato original dos festivais recentes, com o sempre aguardado concurso de 14 curtas metragens em 35 milímetros (6 paulistas, 2 mineiros, 2 catarinenses, um carioca, um do Distrito Federal, um do Pará e um da Paraíba). Novamente prevista a mostra paralela não competitiva PremiSres, com longas inéditos no Rio Grande do Sul. Mas este ano, a exemplo da nacionalização da vitrine principal, há supremacia de títulos brasileiros - 9 contra apenas 2, um americano e um argentino. Na décima segunda edição do Troféu Oscarito, o homenageado da vez é o ator, roteirista, diretor e produtor Hugo Carvana, responsável por três boas comédias de costumes, idos de 70 e 80: Vai Trabalhar Vagabundo, Se Segura Malandro e Bar Esperança.
Entre os longas brasileiros concorrentes, nada menos que quatro títulos saíram de obras literárias, o que deve motivar saudáveis especulações em torno do potencial de originalidade tupiniquim como matéria prima para roteiros. Para analisar e julgar os nove longas, nossos e em separado os dos vizinhos latino-americanos (e um espanhol), foram convidados os cineastas Marcelo PiÀeyro (Argentina), Zelito Vianna, Leonel Vieira (Portugal), a produtora Marisa Leão, a escritora Martha Medeiros, o crítico de música Ricardo Cravo Albin e a atriz Giulia Gam. No júri de curtas-metragens estão os diretores Adrian Cooper e Liliana Sulzbach, o escritor e roteirista Marçal Aquino, o ator José Victor Castiel e a atriz Lilia Cabral.
Além de comemorar a atual boa fase do cinema nacional, o 29º Festival de Gramado espera mais uma vez servir como fonte e estímulo ao turismo e à economia da cidade. Números contabilizados pela Câmara de Indústria, Comércio, Serviços, Agricultura e Turismo do município demonstram que, durante os sete dias da mostra do ano passado, a cidade foi visitada por 110 mil pessoas. Cada um gastou, por dia de festival, uma média de R$ 150,00 com hospedagem, e R$ 40,00 sem hospedagem. Para cobrir Gramado 2001 estão sendo esperados cerca de 350 jornalistas.
Longas latinos
ô25 Watts#, de Juan Pablo Rebella (Uruguai)
ôYoyes#, de Helena Taberna (Espanha)
ôCoronación#, de Silvio Caiozzi
ôUn amor de Borges# (Argentina)


