Dupla dor de cabeça para o júri dos longas metragens brasileiros. Na categoria ficção, a discreta safra oferecida nesta 33 edição do Festival de Gramado não entusiasmou nem a crítica nem o público, perfilando os seis selecionados em patamares muito próximos, todos pouco mais, pouco menos qualificados. Já entre os documentários a história foi bem outra. Não vai ser nada fácil decidir entre quatro ótimos títulos, o que reforça a tese de que uma única mostra, sem discriminação de gêneros, seria uma fórmula quase óbvia nestes tempos em que a realidade anda dando de dez a zero na ficção. Mas como este último dia é sempre dedicado a palpites e especulações para o pódio, então lá vai. Na penúltima hora tornou-se mais insinuante a candidatura do ''Cafundó'' de Paulo Betti, ficando o ''Gaijin'' de Tizuka como a opção mais próxima. E entres os documentários, despontam na reta final ''Do Luto à Luta'' e ''Doutores da Alegria'', sem nem de longe desmerecer ''Soy Cuba, o Mamute Siberiano'' e ''Em Trânsito''.
Entre os sete latinos em disputa, o venezuelano ''Punto y Raya'' seria uma boa escolha, mas o argentino ''Un Mundo Menos Peor'', de Alejandro Agresti, pode motivar os critérios de outro júri, específico para esta categoria. E entre os curtas, analisados por um terceiro júri ao todo Gramado tem 17 jurados! , nenhuma surpresa se o escolhido for o ótimo ''Visita Íntima'', sobre as relações estáveis mantidas entre mulheres livres e homens cumprindo pena de prisão.
A festa de entrega dos Kikitos, este ano com a novidade da premiação em dinheiro, deve começar às nove em ponto, uma vez que a cerimônia será transmitida ao vivo para todo o país pelo sinal fechado do Canal Brasil, da Net/Sky.
Os brasileiros de ficção que fecharam a programação ficaram aquém das expectativas. ''Sal de Prata'', o quarto longa do gaúcho Carlos Gerbase, é filme que tenta em vão decolar, mas fica mesmo no solo por conta de um roteiro tão pretensioso quanto indeciso sobre que o que exatamente abordar, misturando sem muita medida idéias sobre relações amorosas modernas e relações cinematográficas idem, dor-de-cotovelo e conflitos sobre que suporte utilizar neste momento, digital ou celulóide.
É meio meta-cinema, mas se equilibra precariamente entre o discurso pesado e o tom pouco mais leve de uma quase tragicomédia envolvendo gente que tenta (sempre) fazer cinema, mas raramente consegue. A crise de esterilidade se estende afinal ao próprio diretor e a ''Sal de Prata''. Mas as deusas Camila Pitanga e Maria Fernanda Cândido são colírio para os olhos e bálsamo para o desalento do espectador.
O concorrente que fechou a competição foi outro gaúcho (o terceiro da mostra), ''Diário de Um Novo Mundo'', de Paulo Nascimento. É drama histórico ambientado no século 18. Mais vícios do que virtudes, entre essas uma outra deslumbrante presença feminina, Daniela Escobar. Aliás, se acrescentarmos ao trio acima as presenças irradiantes de Tamlin Tomita (''Gaijin'') e Leona Cavali (''Cafundó''), temos um quinteto da pesada, sob todos os aspectos. E embora mais velha e menos vistosa, Priscilla Rozembaum (''Carreiras'') completa um sexteto que deve ter atormentado os jurados para a decisão de melhor atriz.
Impossível não aderir integralmente ao documentário ''Doutores da Alegria'', de Mara Mourão. O filme expõe com enorme eficácia a função social da arte, e especificamente discorre sobre o olhar do palhaço na sociedade, colocando em cena um time de atores talentosos que desenvolvem um trabalho com milhares de crianças hospitalizadas em todo o Brasil, celebrando o triunfo da alegria sobre a dor e a adversidade. Tudo isso e muito mais embalado pela primorosa trilha musical de Arrigo Barnabé.

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