Festival de Gramado comemora 30 anos
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sexta-feira, 09 de agosto de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Há muito o que comemorar. Afinal, qualquer fato cultural significativo que se repita - ou sobreviva - no Brasil por três décadas, em edições anuais, sem qualquer interrupção, torna-se uma espécie de fenômeno respeitável, uma entidade no mínimo especializada em somatizar a montanha-russa da economia do País, ou a ''volatização'', no jargão pós-moderno. Nesses trinta anos, o Festival de Cinema de Gramado passou por um carrossel de emoções: começou mostra incipiente, cresceu festival afrontando o peso e a incerteza de tempos sombrios, alimentou vacas magras da produção incerta, buscou reforço de sustentação nas vizinhanças latinas, sublimou a devastada política cultural, amoldou-se às sempre incômodas alternâncias políticas, avalizou o processo de retomada, inspirou descendências Brasil afora. Em plena maturidade, o Festival de Cinema de Gramado tem mesmo muito a comemorar. E a cidade serrana muito a agradecer, já que o cinema é o carro-chefe na divulgação institucional e turística do município - para se ter uma idéia da importância estratégica, durante a semana que dura o evento cerca de 100 mil pessoas são atraídas pela promessa de fascínio e glamour, engordando a receita da cidade em cerca de 10 milhões de reais.
Mas o melhor da festa que começa nesta segunda-feira, no Palácio dos Festivais, está na programação, com seis mostras competitivas: longas brasileiros de ficção, longas latinos de ficção, documentários brasileiros e curtas metragens (todos em 35 mm), e ainda os concursos de curtas e médias metragens em 16mm. Na corrida aos Kikitos estão ao todo 38 filmes. Some-se a este quadro as mostras não competitivas ''Première'' (4 filmes), ''Cinema nos Bairros'' (7) e a ''Mostra Paralela'' (14), e a maratona estará completa com 63 filmes em exibição.
A novidade mais significativa foi a oferta de documentários brasileiros - quatro, apenas um inédito -, o que motivou a abertura de mostra competitiva específica para o gênero. E outro motivo de celebração é o ineditismo dos cinco longas brasileiros de ficção, fato que vai se tornando raro numa paisagem de festivais nacionais já rarefeita. Mantendo a jovem tradição iniciada em 1990, Gramado uma vez mais sustenta a mostra de cinema latino, nesta edição com quatro títulos - o apelo mais evidente corre por conta do argentino ''O Filho da Noiva'', que este ano concorreu ao Oscar de melhor estrangeiro. Mas o mexicano Arturo Ripstein está presente com seu penúltimo filme, o humor negro ''La Perdición de los Hombres'' - o mais recente dele, ''La Virgen de la Lujuria'', concorre no Festival de Veneza, que começa no dia 29.
Os 14 curtas metragens em 35mm foram selecionados de um total de 134 inscritos, o que dá bem a medida do atual ritmo de produção do formato e autoriza expectativa favorável acima da média, de resto nunca frustrada pelo Festival de Gramado.
A programação inclui ainda duas grandes homenagens. A atriz Marieta Severo é a primeira mulher a receber o Trofeu Oscarito-Telefônica nos 13 anos do prêmio. E o veterano diretor Roberto Farias leva o Troféu Eduardo Abelin, criado em 2001 para render tributo a notáveis do cinema brasileiro. A comissão organizadora, que para esta edição festiva contou com patrocinadores de peso - BR Distribuidora, Telefônica, Eletrobrás e Nestlé -, já confirmou o trânsito de algumas dezenas de nomes famosos: Aracy Balabanian, Ary Fontoura, Beth Goulart, Hugo Carvana, Betty Faria, Darlene Gloria, Guilherme Karam, Giulia Gam, Maria Zilda, Eduardo Galvão, Paulo Betti, Mel Lisboa, Irene Ravache, Laura Cardoso, Paloma Duarte, Joana Fomm, José Lewgoy, Lucélia Santos, Daniel Filho, entre outros.
Os trinta anos do Festival de Gramado estão devidamente registradas em ''Gramado, 30 Anos de Cinema Brasileiro'', livro-álbum ilustrado, com 218 páginas e 500 imagens entre cartazes e fotos, com tiragem de 3 mil exemplares. O documento foi escrito por diversos colaboradores, entre eles os jornalistas Tuio Becker, Ney Gastal, Roberto Gigante, Maria do Rosário Caetano, Hiron Goidanich, Fatimarlei Lunardelli e Carlos Eduardo Lourenço Jorge, além do cineasta Carlos Gerbase.
Três júris vão trabalhar durante o festival. O de longas de ficção, brasileiros e latinos, é composto pelos diretores Ruy Guerra, Carlos Gerbase e Javier Torre (Argentina), pelo fotógrafo Walter Carvalho, pelo jornalista Carlos Heitor Cony, pela atriz mexicana Dolores Heredia e pelo ator Nelson Xavier. Para avaliar os documentários foram convidados os críticos Helio Nascimento e Hiron Goidanich e os diretores Silvio Back, Tetê Moares e Vladimir Carvalho. O júri de curtas conta com o diretor Sergio Silva, os atores Chico Diaz e Dirá Paes, e a crítica Lucia Nagib.


