O cinema latino fez sua entrada no 34º Festival de Gramado, e a estréia não foi lá das mais felizes. Abrindo a mostra competitiva do continente, a Bolívia enviou material de qualidade duvidosa, o longa ‘‘Di Buen Dia a Papᒒ. Embora o título a princípio sugira material diferente, trata-se do nome-código da operação militar que prendeu e executou Ernesto Che Guevara em 1967, em território boliviano. O filme não pretende contar as andanças guerrilheiras do mitológico personagem argentino-cubano, mas mostrar como sua figura, seu credo revolucionário, seu fim trágico e a memória do ícone afetaram por mais de três décadas os poucos habitantes de Vallegrande, pequena cidade onde foi morto e enterrado em segredo pelo exército – a narrativa termina com a exumação da ossada de Guevara, em 1997
  Como se vê, uma ótima base de argumento, material virgem para roteiro e direção à altura de proposta tão original. Mas Verônica Córdoba e Fernando Vargas, ela co-roteirista, ele diretor, ficaram longe das melhores expectativas e entregaram um filme frágil, carregado com pesada carga de dramaturgia telenovelesca, uma espécie de condensação dessas intermináveis narrativas vertente ópera-sabão (vale a tradução literal) que Silvio Santos compra de núcleos produtores de paises como Venezuela e México.
  Muito da história, segundo os realizadores, está baseado em fatos verídicos. Mas o argumento, ao redor de três mulheres de uma mesma família, seus amores, rancores e reconciliações, no mínimo embaralha as coisas, numa permissividade rasteira que funde, aleatória e irresponsavelmente, dados documentais e textura ficcional.
  Se a tese de sustentação do filme foi o olhar dos vallegrandenses sobre o Che e seu significado, e em consequência o que teria ficado do ideário guerrilheiro nos corações e mentes deste povo (metáfora de uma América Latina socialmente excluída), então o que restou na tela foi somente um grande equívoco, uma perda de tempo e recursos, a lamentar especialmente quando se conhece a extrema penúria da realidade cinematográfica boliviana.

  Sexo e política - Filme de estréia no mineiro-carioca Marcelo Santiago, ‘‘Sonhos e Desejos’’ é o ‘‘Cabra Cega’’ que não deu certo. E para quem não conhece ainda este muito bom filme de Toni Venturi – em Londrina não entrou no circuito comercial –, as locadoras têm boas cópias em DVD. Produção do clã LC Barreto, o filme transporta o clássico triângulo amoroso para os exíguos limites de um apartamento (‘‘aparelho’’, no jargão dos movimentos que combatiam na clandestinidade a ditadura militar dos anos 1960-70).
  Em Belo Horizonte, Felipe Camargo, nome de guerra Saulo, é o professor de literatura, idealista que passa das palavras à guerrilha urbana e leva junto a apaixonada aluna Mel Lisboa, aliás Cristiana. Vivem idílica, tórrida aventura de militância sexo-política. Até a entrada em cena de outro jovem guerrilheiro, um bailarino, codinome Nijinsky, ferido que precisa se recuperar. Claro, sob desvelados e ardentes cuidados da jovem aprendiz de guerrilheira. Saulo transfere para a cama a impotência (óbvia simbologia) da reação armada nas ruas, enquanto Cristiana mais e mais se entrega à sôfrega paixão com Nijinsky.
  Baseado no romance ‘‘Balé da Utopia’’, de Álvaro Caldas (o belo e sugestivo título do original foi mudado porque ‘‘não era tão comercial’’, como reconheceu o diretor durante os debates), o filme peca por falta de verossimilhança, em especial quanto à consistência dos personagens. E o roteiro sensivelmente leva para segundo plano a questão político-ideológica, colocando em relevo a trama erótico-afetiva.
  Deve-se questionar ainda a hipertrofia do enfoque sexual – Mel Lisboa literalmente deita e rola com a dupla de parceiros na clausura forçada pelos mecanismos da repressão. A bela trilha de Milton Nascimento, reacendendo velhos hits do Clube da Esquina, arrefece um pouco a
irritação.
  E entre o filme boliviano e o brasileiro, pausa muito festejada para a homenagem a Antonio Fagundes, escolhido este ano para receber a 17ªedição do Troféu Oscarito. Cercado de muita badalação, o ator foi ainda mais aplaudido quando restringiu seu pronunciamento no palco do Palácio dos Festivais a menos de cinco minutos. Nada de efusões ou comoção ou longos agradecimentos àquela extensa lista via de regra invocada nestas ocasiões. Somente o reconhecimento, simples, sincero, improvisado, ao talento de quem inspirou o prêmio, à genialidade do humor de Oscarito.

- O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Gramado.

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