Ainda que um ou outro título de língua hispânica tenha demonstrado vulnerabilidades, a esta altura já não há mais dúvidas de que a seleção dos vizinhos, pouco mais, pouco menos próximos, se impôs com sobras diante de nossas produções. E se o confronto ainda fosse unificado como na década passada, dificilmente o Kikito de melhor filme deixaria de ir para um deles, os vizinhos, no caso os mais próximos argentinos ou os mais distantes mexicanos.
  Hoje à noite, com transmissão direta pela tevê a partir das nove e meia, a revelação dos vencedores da 34ªedição de Gramado deverá confirmar esta hegemonia, que se explica, mas não se justifica. Sabe-se com certeza que há considerável quantidade de títulos brasileiros, prontos e inéditos, sendo neste momento disputados pelos festivais de Brasília e do Rio, além da Mostra Internacional de São Paulo. Com certeza haveria mais qualidade dentro desta maior oferta. Poderiam ter estado aqui, mas não vieram.
  Este é um dos impasses atuais que Gramado tenta superar, o descrédito de um festival que nos últimos anos teve seu principal foco, o do cinema, desviado para trivialidades/frivolidades mundanas colaterais. Não é novidade: é preciso inverter a fórmula, priorizar novamente a discussão sobre o que de fato interessa para a classe e reduzir a influência do universo de ‘‘atrações globais’’ que sobe a Serra nesta época do ano.
  É preciso evitar – banir para sempre seria impossível – incidentes constrangedores (alguns preferem chamar de vergonhosos) como o da quarta à noite. Durante homenagem ao cineasta Vladimir Carvalho, a dupla Sandy & Junior, convidada do sempre muito discutível evento paralelo Gramado Cine Vídeo, trouxe para dentro do Palácio dos Festivais aquela pegajosa, devoradora, mal educada tietagem que carrega sempre acoplada uma dúzia de gorilas, além do inseparável armamento digital que agora tenta corrigir no ato e ao infinito a insistente precariedade do olho amador. Corre-corre, uma quase histeria e um quase tumulto.
  Por essas e outras é que, em muitos momentos recentes, Gramado se transforma numa espécie de festival de Caras. E seu destino melancólico, sua vala comum, tem sido no mês seguinte o espaço volátil dos cabeleireiros e a ante-sala dos consultórios médicos. Infelizmente só para ser folheado, pela vaidade ou com dor.
  Nas previsões de logo mais, como concorrentes aos melhores, na categoria latina, surgem o ótimo mexicano ‘‘El Violin’’ e o também muito bom argentino ‘‘El Método’’ são fortes candidatos, quase favoritos mesmo. Entre os brasileiros, ‘‘Anjos do Sol’’ e o documentário ‘‘Pro Dia Nascer Feliz’’ fazem alguma diferença e devem disputar diretamente o Kikito de melhor filme. Há dois júris trabalhando separadamente para escolher os ganhadores entre os nacionais e os estrangeiros.
  Não há favoritos destacados entre os treze curtas metragens, mas todos, como traço característico e como resoluções mais ou menos felizes, trazem embutidas interessantes e/ou provocantes propostas temáticas e estéticas. Nada, porém, digno de constar em antologia.
n O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Gramado.

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