FESTIVAL DE GRAMADO - Bom cinema é questão de método
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quinta-feira, 17 de agosto de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Gramado<br> Especial para a Folha 2 
Quando o Festival de Gramado foi latinizado, no início da década passada, a disputa então era única, não havia divisão entre nossos filmes e os de países vizinhos, reunidos todos numa mesma faixa competitiva. E o júri internacional, com incomoda frequência, exportava o Kikito de melhor filme e sinalizava, com raras exceções, que o cinema feito na vizinhança continental oferecia exemplos significativos aos realizadores aqui da terra.
E mesmo quando no final da década foram criados dois júris e a premiação foi dividida melhores brasileiros de um lado, melhores latinos do outro , estes ainda mostravam que a boa prática cinematográfica estava acima dos limites do movimento da retomada pós ''Carlota Joaquina'', incensada pelos louros do auto-marketing.
Não tem sido diferente nesses últimos anos. O filme argentino ''El Metodo'', que estréia comercialmente hoje no Brasil com o título ''O Que Você Faria?'', dá bem a medida da capacidade de nossos vizinhos no tratamento da fluência da narrativa cinematográfica. Capacidade, de resto, não propriamente ausente do currículo de nossos realizadores mais interessantes, mas com certeza em desuso por conta do desleixo, da arrogância, da pretensão.
Baseado em peça teatral e assisti-la no palco deve ser experiência igualmente fascinante , ''El Método'', quando nada, deve sair de Gramado com o prêmio de melhor roteiro. Mas reúne méritos para levar outros. Dirigido por Marcelo PiÀeyro (''Plata Quemada''), o filme coloca sete jovens executivos trancados numa sala onde serão submetidos a teste de seleção para trabalhar numa grande empresa em Madri, no momento convulsionada por violentos protestos de rua contra a globalização e a política monetária do FMI.
O grupo tem pela frente uma seleção nada convencional a partir do Método Gronholm, que avalia ações e reações diante de uma série de testes propostos pelo computador. As sete diferentes personalidades têm que exercitar a capacidade de controlar comportamentos e emoções. No começo seguros de si, logo são levados a situações-limite e a níveis insuportáveis de tensão. A interação/desafio leva a embates extremos, já que perder a disputa é perder a única vaga. E enquanto lá fora o mundo desaba, naquela sala o microcosmo reflete como maquiavélicos jogos de poder e manipulação regem cada vez mais as relações não apenas profissionais e políticas, mas também as pessoais, as afetivas.
O tema da competição selvagem e perversa num universo capitalista idem é sempre gerador de infinitas possibilidades dramáticas. E PiÀeyro não perde a vez e parte para fazer um filme em que o roteiro, justo e preciso, abriga e estimula um conjunto de personagens construídos com muita acuidade e valorizados por um leque de atuações niveladas pela excelência.
Muito bem escrito para cinema, portanto resolvido à perfeição como narrativa cinematográfica, o filme trabalha tempo e espaço na medida certa para que se produzam os melhores efeitos, inclusive o suspense. ''El Metodo'' deveria ser audiovisual obrigatório não somente no território de seu alvo de eleição, o universo empresarial, mas onde quer que se reúnam mais de duas pessoas inteligentes. Até mesmo em roda de bar seria um filme útil.
Outro lançamento nacional desta sexta-feira, com 60 cópias espalhadas por salas das principais capitais, ''Anjos do Sol'' é mais um brasileiro em competição no Festival de Gramado. Escrito e dirigido por Rudi Lagemann, outro gaúcho da geração de Jorge Furtado que se lança no longa metragem, o filme aborda e ficcionaliza com crua franqueza documental a prostituição infantil, uma das mais agudas questões sociais do país.
O roteiro não tem meias palavras sociológicas ou faz qualquer proselitismo. Através da emoção, tenta monopolizar a atenção da platéia com a história de Maria, menina de 12 anos. Ela percorre, de mão em mão criminosa, um pesado caminho sem volta, um corredor de horrores que começa na venda pelos pais, passa por um leilão de virgens e prossegue na manipulação/exploração por cafetões do interior ou da cidade grande. O pesadelo, claro, jamais termina. O final em aberto é a própria chaga social que não é tratada por ninguém. Talvez se ouça falar do assunto, neste tempo pré-eleitoral.
Lagemann, publicitário de sucesso no Rio, optou pelo recorte do clássico filme denúncia, pelo impacto emocional como elemento catalisador de consciências. Como prós de imediato reconhecimento: a informação veiculada e autenticada a partir de números oficiais, a dramatização dos fatos realizada com objetividade, sem recorrer à chantagem da lágrima, a evidente honestidade de propósitos e a urgência do tema, transformada em medidas concretas. Vale dizer, na semana passada produtores do filme assinaram em Brasília acordos com a Organização Internacional do Trabalho e a com Fundação Abrinc para garantir a distribuição de milhares de cópias quando o filme sair em DVD.
Os contras detectados alguns excessos maniqueístas e na composição caricatural de alguns personagens masculinos não chegam a prejudicar o conjunto de grande impacto.


